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Experiências reais mostram como amor e carne passeiam de mãos dadas pelas vielas da capital

Assim como na obra de João Ubaldo, Salvador cumpre sua vocação libertina

Publicado em 29 de março de 2025 às 05:00

Salvador tem diversos tipos de programas para quem quer apimentar a noite
Salvador tem diversos tipos de programas para quem quer apimentar a noite Crédito: Shutterstock

Salvador cheira a ousadias. No plural mesmo. E como um repórter casado, monogâmico, tem o direito de achar que pode falar de uma noite de putetê, regado a afetos, medos, sexo e lugares em que a busca de um corpo alheio é a missão da noite?

Sim, já tive meu momento. Mas este quarentão, quando aprontava das suas, o Mamagaia ainda existia. Injustiça das pautas em que o repórter acha que sabe tudo. Não, não sei. Quando surgiu o Tinder, já era casado. Não tenho perfil lá. Por isso, o melhor a fazer é entregar nas mãos de soteropolitanos ainda vivos na noite, com experiências geniais e que possam contar, de suas maneiras, estilos e gêneros, como é a noite baiana.

Não se trata aqui de um guia, mas de contos sobre o que é sentir uma Salvador noturna. Aqui, apenas os nomes foram preservados. Cada um ganhou um personagem de Jorge Amado. Se também contaram alguma inverdade, o problema é deles. O importante é gozar.

Um jegue no cio

Cara de novinho, não passa dos 24 anos, Vadinho parece um poço de testosterona. Qualquer local nas noites de Salvador é motivo para ele ‘caçar’ as donzelas em perigo. Muitas vezes, ele é o próprio perigo. É uma espécie de hétero quase raro, daqueles que ainda gostam de um sapatênis e chama festa de balada. Mas, parafraseando Jackson do Pandeiro, onde tem mulher, ele está lá.

A receita para uma pegação boa é simples e até inusitada: “Barracas do Imbuí, bares no Rio Vermelho, Carmo e pós-provas de corridas. Festas no Rio Vermelho e Carmo tem muita mulher de bobeira, só esperando um cara de atitude”, dá a dica.

Peraê, pós-prova de corrida? Vadinho é atleta e garante que, para um hétero se dar bem, tem que procurar os lugares mais inusitados, incluindo grupos de corrida, de crossfit, entre outros. Ele assegura que conhecer pessoas em lugares como este, muitas vezes, é mais eficiente que os aplicativos de encontro. “Aplicativos ou instagram é mais fácil e prático, evita algumas conversas enroladas que não vão dar resultado. Mais que o lugar, o segredo é fazer a mulher sorrir e tratar bem, além de um bom papo e bom perfume. É certo de rolar, pelo menos, um amasso no carro”, disse Vadinho, que conta ter feito sexo nos mais diversos lugares, incluindo camarote, piscina do prédio e banheiro de barzinhos.

Aliás, barzinho, para ele, ainda é o melhor lugar. “Um aniversário no finado Tarantino, boate na Barra, fiquei com 14 meninas. O recorde em uma só noite foi transar com três mulheres. Mas já teve uma vez, com uma única mulher muito tarada e sadomasoquista, que transamos cinco vezes em 15 horas”. Eta porra…

Amor é liberdade

Sim, o amor é liberdade. E, caso você ache que relação aberta é sinônimo de promíscuo, revise seu conceito. Nas noites de Salvador, o relacionamento não monogâmico ganha cada vez mais adeptos, mas misturar a liberdade da relação com o fato de não ter regras é um equívoco dos grandes.

Tereza Batista e Januário Jereba são exemplos disso. Não há dúvida do amor entre os dois. Mas o desejo, ah o desejo! Ela é tão respeitada quanto o amor a dois. E a experiência nas ruas de Salvador são únicas e transcendem o lado chato e hortodoxo da monogamia. E não falta respeito, vale a redundância. “Acho que promiscuidade é algo mais próximo do universo monogâmico, já que é um termo carregado de pretensão moral. Acho que o fato que as regras são (ou devem ser) consentidas e acordadas é o que diferencia”, revela Tereza cansada de guerra.

Apesar de Salvador ter uma pretensão liberal, casais que pensam fora da estrutura tradicional ainda sentem receios de locais hostis ou das curiosidades preconceituosas e equivocadas. Por isso, eles sempre optam por lugares alternativos para curtir a capital e o que ela pode oferecer. “Tem uma festa chamada Komboza. Mesmo não sendo um rolê criado com esse intuito, acabou reunindo um público ‘simpatizante’ e se tornando um ambiente tranquilo para vivenciar experiências fora da caixinha”, dá a dica.

É como descolonizar os afetos. Apesar de já ter rolado experiências como num trisal, o casal prefere experiências separadas. Inclusive, o sexo casual não é o forte. Precisa, de fato, ter química, um estímulo intelectual. Alguém interessante, com acervo e que, para além de intimidade, possa se tornar um amigo. Mas Tereza sabe que Salvador sempre vai guardar o inesperado.

“Não costumo praticar sexo casual, mas acho que Salvador é o tipo de cidade safada onde, em quase todo lugar, você pode encontrar um ensejo pra isso. O respeito é um conceito bem subjetivo, então acho que cada um deve estabelecer e buscar sua zona limite para que ele não falte”, conta.

A noite não é para mulheres que amam mulheres

Tieta conhece cada viela de Salvador. Se fosse para listar todos os lugares que ela conhece e já frequentou, não caberia no texto. Tieta só quer amar, mas um obstáculo ainda poda este espírito carnal: o medo de uma cidade que ainda não respeita uma mulher sozinha.

Solitária ela não está mais. Até o fechamento desta edição, Tietinha estava amando e namorando sua companheira Carmosina. Mas o desejo é fogo e sua paixão perecível. Amanhã, ela pode acordar e não querer mais. Mas o medo faz dela monogâmica. “Assédios, preconceitos, mulher sozinha numa noite ou é puta ou quer ser estuprada. Nenhuma mulher que gosta da noite de Salvador está salva. Hoje tenho carro, mas quando não tinha? Me escondia até em banheiro de bar para aguardar amanhecer pra pegar meu buzu. É difícil para uma mulher nas noites desta terra maravilhosa, mas perigosa”, conta.

Também já ficou com homens para se sentir mais segura (e respeitada). Contudo, se pudesse, estaria na cama todo dia com um novo amor. Tieta reclama de poucos lugares que possuem um público voltado para lésbicas, mas aponta dois como seus preferidos: Bar da Pri, além de um evento chamado Sapaokê, no Santo Antônio Além do Carmo. Mas com tantos perigos noturnos, Tieta aconselha, ao invés das noites, o dia. “O Porto da Barra, Buracão, as praias de Salvador se tornaram o melhor lugar para nós, lésbicas. De lá, a noite acaba sendo na casa de alguém. Mas na rua, sair na doida como um homem faz, ainda é complicado para uma mulher, já sofri inúmeros assédios. Não dá”, rebate. Aprende, Salvador.

Casual, mas com amor

Quem vê Balduíno no dia a dia, seu ar sereno, carinha sonolenta e uma fala arrastada, não sabe o que ele é capaz de fazer pelo prazer (e carinho) nas noites de Salvador. Na sua vitamina para encarar a cidade festeira 18+, ele mesmo soletra todos os ingredientes que valem a pena no putetê soteropolitano: casas de swing, clubes de sexo, bregas, cruising bar, espaços de pegação diversos, becos e vielas, além de resenhas nas casas das pessoas. “Basta ter um mínimo de duas pessoas com tesão que essa vitamina vem”, descreve.

Ele não curte muito aplicativos, preferindo encontros em lugares destinados ao público gay. Para ele, os aplicativos estão mais chatos e mecânicos, bem diferente do que é possível encontrar nas noites da capital baiana. “Raramente desenrola um encontro de fato. O aplicativo tem um protocolo para se apresentar, dizer de onde é, perguntar o que curte (preferência sexual), trocar nudes e a narrativa morre aí. Vira um ghosting e nada mais acontece”, disse.

Com um vasto repertório, Balduíno diz que o público gay tem procurado a moda do momento, que ele indica: os ‘cruising bar’. Em tradução livre, é um ‘bar da pegação’. Lá, é liberado o sexo concensual na parte interna da casa. Entre homens, claro. Tem até dias específicos em que todos entram nus ou quem tem o pênis com mais de 20 cm não paga a entrada.

Um dos mais conhecidos fica na Barra e se chama Zoom. Mesmo assim, em meio a esta chuva de tentação carnaval, Baldu garante que há carinho e afeto no tesão. Há quem queira sexo por sexo. Mas, nas noites baianas, Balduíno garante que pode mais, independentemente do lugar: “dengo e putaria na mesma oração”, completa.