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Carolina Cerqueira
Publicado em 23 de março de 2025 às 05:00
Elas são cobradas para continuarem jovens. Homens as fazem mudar de calçada por medo. Comentários assediadores estão incômoda e eternamente gravados na memória. Duvidam da inteligência delas. O acúmulo de trabalho e tarefas domésticas é exaustivo. Dói cada vez que leem uma notícia de uma mulher agredida ou morta. >
Só sendo retadas para lidarem com isso e mais tudo o que não coube no parágrafo acima. Elas já nascem merecendo aplausos porque cada passo é um grande feito. Para exaltar ainda mais cada conquista, o projeto Retadas, do Jornal CORREIO, celebra as mulheres baianas. >
Chegando à nona edição, tem mais de 300 nomes celebrados no projeto, com 45 reportagens e 2,4 milhões de alcance nas redes sociais. Todos da redação do jornal podem sugerir nomes, o que explica a diversidade social, econômica e de área de atuação das indicadas. >
“Todas as mulheres são líderes e muitas não têm noção disso. Uma mulher que cuida de uma casa e dos filhos é uma grande líder. Tem liderança mais forte que essa? Ver as mulheres no holofote do Retadas vai lembrá-las disso”, destaca Marly Brito, dona do restaurante Café com Cacau e uma das retadas de 2025. >
Depois de anos trabalhando como empregada doméstica, ela encontrou no empreendedorismo o caminho para a própria liberdade. Hoje, é vencedora estadual do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios e emprega 15 mulheres. >
Dados de pesquisas da própria instituição mostram que a maioria dessas empreendedoras baianas retadas é negra, mãe, chefe de domicílio, trabalha sozinha, tem dupla jornada, não tem alto salário e ainda sofre preconceito. >
Comércio, serviço e artesanato ainda são as principais vertentes de atuação e setores como indústria e agropecuária continuam dominados pelos homens. Renata Muller vem tentando mudar isso. >
Também uma das retadas de 2025, ela é a primeira mulher a assumir a vice-presidência da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). O que ela chama de “Missão Mulher” é o trabalho para que a presença feminina na indústria seja parte da regra. >
Sair da exceção é o que também busca a jornalista e produtora baiana Val Benvindo, mas na área de cultura e com foco nas mulheres negras. Para ela, o nome do projeto não poderia ser outro. “É um adjetivo muito nosso mesmo. Fico honrada de ser uma dessas retadas. É muito bom ver nosso trabalhando sendo notado e valorizado dessa forma”, compartilha Val. >
A editora-chefe do CORREIO, Linda Bezerra, também ressalta o toque de baianidade que existe no projeto. Se o slogan do jornal é ‘o que a Bahia quer saber’, o Retadas mostra os trabalhos que estão sendo feitos por mulheres que a Bahia quer conhecer. “É um projeto muito querido por todo mundo da redação e pelos leitores. Segue a linguagem do CORREIO e fala diretamente com os baianos para celebrar essas atuações femininas incríveis”, diz Linda. >
Um desses trabalhos é o da escritora baiana Elayne Baeta, também uma das retadas de 2025. Ela conquistou o cenário literário nacional contando histórias de casais LGBTQIA+ com muita persistência e promete nunca abandonar as raízes baianas. “Nascida e criada em Salvador com muito orgulho. Em todos os espaços que eu conquistar, saberão exatamente de onde eu vim. A Bahia é o mundo!”, disse a escritora em celebração ao projeto. >
Ao menos 25 mulheres já foram celebradas pelo Retadas nesta edição. Publicações no Instagram do jornal @correio24horas reúnem um breve perfil de cada uma delas. Diante de uma sociedade ainda desigual, projetos como esse continuam sendo necessários. Ainda há muito a se conquistar.>
Rumo à regra>
A secretária de Políticas para as Mulheres em Salvador, Fernanda Lordelo, defende que políticas públicas voltadas para elas são necessárias porque ainda é preciso protegê-las e fortalecê-las diante de uma sociedade onde o machismo é estrutural e homens ocupam a maioria dos espaços de liderança. >
A deputada estadual Soane Galvão, presidente da Comissão dos Direitos da Mulher na Assembleia Legislativa da Bahia, comemora que o estado tem, depois de 190 anos, a primeira mulher presidente da Alba: Ivana Bastos, também celebrada como retada. Mas lamenta que apenas 15% da casa seja de mulheres. >
“Criam barreiras para a gente não chegar nas posições de poder, mas lutamos aqui para remar contra isso e o projeto Retadas nos ajuda. Às vezes, a gente está no meio do caminho perdendo forças e, quando vemos uma mulher sendo exaltada, é uma injeção de ânimo”, opina a deputada.>
A psicóloga Lara Cannone, mestre em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismos pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), lembra que não somente muitos direitos ainda precisam ser conquistados como é preciso estar em alerta quanto à continuidade do que já foi obtido. >
"Nenhum direito já conquistado tem garantia permanente. Quando temos ondas mais conservadoras ou reacionárias, eles ficam ameaçados", coloca. Para a doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Ufba Maíra Bianchini, que estuda questões de gênero nas narrativas audiovisuais, há uma onda conservadora atuando hoje, o que faz com que os avanços conquistados ao longo dos anos em relação à representatividade das mulheres nas telas fique sob alerta. >
"Temos esse movimento mais conservador, de manutenção do status quo masculino, branco e heterossexual. Por outro lado, algumas obras bancam mais a luta e buscam mais diversidade e representatividade na tela. Em 2024, no cinema, tivemos o mesmo número de protagonistas homens e mulheres nos filmes de maior bilheteria. Ao mesmo tempo, o número de criadoras mulheres de séries originais e de personagens femininas diminuiu", analisa a pesquisadora. >
O projeto Retadas é uma realização do jornal Correio com patrocínio da Tronox e apoio institucional do SEBRAE e da FIEB.>