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Gabriel Galo
Publicado em 23 de julho de 2018 às 05:00
- Atualizado há 2 anos
Você sabe o que é stand up? É aquela modalidade de humor que um comediante sobe sozinho ao palco, conta piadas para agrado da plateia, sem personagens nem interações com outros atores. Ele, voz e microfone.>
Há algumas décadas, quando este tipo de apresentação já estava consolidado nos EUA, surgiu um espetáculo bufo que, felizmente, já caiu em desuso. O show humilhação se dava da seguinte maneira: o pretenso humorista, durante o tempo de sua performance, canalizaria sua raiva às pessoas da plateia. Era uma sucessão de piadas que conseguia constranger todos os presentes. Quem ria, ria de nervoso.>
Acontece que por estas bandas do país maravilhoso que é a Bahia, as coisas demoram um tanto mais para chegar. Diz um amigo, cheio de chinfra e de galhofa, que se o mundo acabar, a Bahia fica sabendo cinco dias depois. Assim, estamos assistindo à chegada do stand up humilhação nas terras lambuzadas de dendê. E vemos a descoberta de uma nova profissão de alguém que até então tínhamos como treinador de futebol. Não há dúvidas: Vagner Mancini é, acima de tudo, um fanfarrão, um comediante de piadas de mau gosto.>
Os proprietários da casa de shows, apesar de tantos apelos de um público cansado de sofrer, mantiveram a programação. Mancini renovou para mais tantas apresentações. “Na pausa para a Copa ele há de melhorar!”, diziam os donos, enquanto nos bastidores o comediante era só gargalhada. Na plateia, a torcida que ainda insiste, que persiste, que não desiste.>
Ontem, o fanfarrão comediante preparou piadas que certamente chocariam quem se atrevesse a vê-lo. No palco que ele mesmo levantou, alguns centímetros mais elevado para aumentar a sua percepção de grandeza, iniciou sua série, metralhadora de impropérios.>
“Para começo de conversa, Fillipe Soutto é titular da volância”. A plateia riu de nervoso. Viram a escalação, sofreram. Xingaram. O artista, no palco, ria histericamente da cara da apalermada audiência. Continuou. “Cortei Cedric e vou com Lucas no banco!” Os mais sensíveis começaram a chorar em desespero. “Chora mais! Porque ainda vou colocar ele pra jogar!” Alguns ameaçaram partir para a violência física.>
Ele prosseguiu, ensaiando uns sarcasmos. “Qualquer coisa, se tudo der errado, podemos sempre confiar em Yago para reverter a situação”. Ele ria como hiena, puxava o ar profundamente para se recuperar do ataque de riso.>
“E sabe o que é pior? Eu ainda consigo convencer os donos desta casa a continuar me chamando para trabalhar!” Pronto. O escárnio agora se virava também para os diretores da instituição. “E quem são eles para negociarem comigo? Depois daquele Ba-Vi da fuga, esta casa nunca esteve tão pequena em sua história!” Ele deita no palco, rindo que não se aguenta. As palavras saem em soluços.>
“Na pausa para a Copa, por exemplo, tratei de botar atestado e trilha sonora nos treinamentos. Sabe aquela música Tempo Perdido da Legião? Ela mesma!” Há, apenas, humilhação no ambiente. “Mas podem ficar tranquilos. O fundo de poço tem subsolo. Esperem acabar este Ba-Vi!” Agradeceu a plateia, dando ‘até quinta-feira!’, certo de sua impune permanência.>
Os chefes se reúnem. “Ele não é ótimo? Tem nada de politicamente correto ali. Adoro esse humor anos 80”. Alguém propõe ação imediata: “mete uma hashtag aí e tudo passa”. Um desavisado aborda, “mas e a torcida?” Todos caem na gargalhada. “Principiante...”>
Gabriel Galo é escritor>