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Thais Borges
Publicado em 8 de outubro de 2019 às 15:27
- Atualizado há 2 anos
O óleo que atingiu as praias da Bahia nos últimos dias chegou, nesta terça-feira (8), a dois dos principais pontos turísticos do Litoral Norte do estado: a Praia do Forte e a Praia de Santo Antônio, ambas no município de Mata de São João. O material – identificado pela Petrobras como petróleo cru – se espalhou por toda a costa do Nordeste, desde o início de setembro. >
Ao todo, já são dez praias afetadas em cinco municípios baianos, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama): Mangue seco e Coqueiro (Jandaíra); Barra da Siribinha , Barra do Itariri e Sítio do Conde (Conde); Baixio e Mamucabo (Esplanada); Subaúma e Porto do Sauípe (Entre Rios); e Praia do Forte (Mata de São João).“Por volta de 10h30, encontramos pequenas pelotas de óleo lá. É pequeno, mas tem. Isso está sendo mudado a cada momento. Hoje de manhã, não tinha nada. Quando fomos de novo, já tinha mudado”, afirmou o engenheiro de pesca do Projeto Tamar, César Coelho. De acordo com ele, porém, ainda não foi necessário mudar a rotina de soltura dos filhotes de tartaruga na Bahia, já que as manchas ainda são muito pequenas. >
Mesmo com a beira-mar com pequenos pontos de óleo, os turistas em Praia do Forte continuam a curtir a praia no local. A administradora Daniela Carvalho, que vai passar a semana no local, garantiu que deve continuar a tomar banho de mar com a família, apesar de ter ficado com uma mancha no pé pelo contato com o óleo. “A gente tentou dar uma juntada nos pedacinhos mais cedo, mas não sabemos onde jogar. Seria interessante se a gente se juntasse para tentar limpar”, disse.>
Karina Afonso está hospedada na casa da sogra em Mata de São João. Ela contou que um amigo do enteado entrou no mar nesta terça e saiu com o pé cheio de resíduo. “Se aparecer uma poça grande, eu vou para de entrar", afirmou Karina.>
Mesmo com a chegada do óleo ao município de Mata de São João, a soltura dos filhotes de tartarugas na Bahia não foi suspenso pelo projeto Tamar. Na segunda-feira, o CORREIO mostrou que o projeto tinha decidido suspender a soltura dos filhotes em estados como Sergipe, que concentra a maioria dos ninhos. >
O período de desova vai de setembro ao início do próximo ano. Em geral, os filhotes nascem até abril, porque os ovos levam de 45 a 60 dias para eclodirem. Na Bahia, em todo o ano passado, foram registrados oito mil ninhos.>
A coordenadora de licenciamento e fiscalização ambiental da prefeitura de Mata de São João, Yuka Fujiki, informou que as manchas foram encontradas nos dois pontos após a subida da maré. Segundo ela, na Praia do Forte, a maioria das manchas foi encontrada após a região onde fica o Tamar, já nas proximidades da Praia do Lorde. >
Devido à situação em toda a região Nordeste, a prefeitura acionou o Ibama e o Inema. “A orientação é aguardar a chegada deles porque, antes de retirar (o material), é necessário fazer um protocolo de recolhimento estabelecido pela Petrobras. Ainda são pontos bem diminutos, mas infelizmente, existe essa triste realidade”, lamentou.>
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Na cidade do Conde, agentes do Centro de Defesa Ambiental retiram diariamente os resíduos de óleo das praias no município. No local, a mancha fez com que os pescadores ficassem impedidos de ir para o mar e até o mangue pode ser afetado com a cheia da maré. As consequências da chegada dos resíduos também pode ser sentida pelos hotéis e pousadas. Alguns visitantes cancelaram a reservas para o final de semana passado e já desistiram de viajar para o lugar no dia das crianças, neste sábado (12).>
Envenenamento As primeiras manchas do óleo começaram a aparecer no início de setembro, em Pernambuco. No entanto, em poucos dias, a mancha se espalhou nos outros estados - o último foi justamente a Bahia. Segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), não há registro de casos de atendimento nas unidades de saúde devido ao contato com a substância. Mesmo assim, o manuseio não é recomendado por especialistas – o ideal é usar luvas. >
De acordo com o professor Francisco Kelmo, diretor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), quem se alimentar de peixes e mariscos que ingeriram o óleo corre riscos de envenenamento – desde uma reação alérgica até algo mais grave.>
Se for alguém que tem uma pele muito sensível, o simples contato pode desencadear uma alergia na pele.“O problema é que, quando você entra na água, pode engolir ou respirar. O petróleo cru é de difícil digestão. Uma vez dentro do organismo, ele começa a se partir, se fragmentar. Embora não seja digerido, o acúmulo nos tecidos pode causar algum problema”, diz Kelmo. As consequências podem variar de pessoa para pessoa, além da quantidade do material. “Por isso, a recomendação é geral: não pegue e não se alimente de mariscos e peixes que tiveram contato com o óleo”, reforça.>
Quatro pesquisadores do Instituto de Biologia da Ufba devem viajar, nesta quarta-feira (9), até os municípios baianos afetados pelas manchas de petróleo para auxiliar o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nas investigações do problema. >
Mistério A origem da substância ainda é um mistério. Procurado pelo CORREIO, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) divulgou o mesmo balanço divulgado no domingo (6). No documento, o órgão informa que o óleo é petróleo cru e já foi encontrado em 132 localidades, em 61 municípios da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. Até agora, 11 tartarugas adultas e uma ave foram localizadas machucadas ou mortas por conta do contato com a substância.>
O Ibama afirmou também que vem estabelecendo uma série de ações com o objetivo de investigar o despejo do petróleo e que requisitou apoio da Petrobras para atuar na remoção da substância.>
Já a Marinha informou abriu um inquérito administrativo para apurar a situação. Em todo o Nordeste, 1583 militares, cinco navios, uma aeronave, além de embarcações e viaturas pertencentes às diversas Capitanias dos Portos, Delegacias e Agências, têm atuado na operação.>
Todo o material coletado pela Marinha está sendo analisado pelo setor de Geoquímica Ambiental do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira. Assim como o Ibama, a Marinha também destacou que trata-se de petróleo cru."Para a elucidação dessa ocorrência inédita, que atinge grande parte de nosso litoral, a Diretoria de Portos e Costas conduz um Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN). Nesse processo, são analisados os dados do tráfego marítimo na área, as informações de patrulha de navios e aeronaves da MB, simulações computacionais sobre as influências de corrente no Atlântico Sul e análise dos perfis químicos dos resíduos coletados", informou a corporação.Ainda de acordo com a Marinha, todas as medidas estão sendo adotadas em parceria com o Ibama, ICMBio, Polícia Federal, ANP, Petrobras e Força Aérea Brasileira, além de entidades governamentais e privadas dos estados e municípios afetados.>