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Da Redação
Publicado em 3 de agosto de 2022 às 05:00
Ciclista morto no Dique durante roubo. Nutricionista baleada durante assalto em Nazaré. Idosa atingida em fogo cruzado na Barros Reis. Agora, estudante morta em tentativa de roubo no Campo Grande.>
Por mais que sejam casos autônomos para a polícia, a sensação de insegurança é generalizada em Salvador. Também não se deve contestar que a violência, sobretudo letal, atinja a capital baiana há tempos, não só no centro, mas, principalmente, nos bairros populares. >
Em 2021, Salvador apareceu como capital de maior taxa de mortes violentas do Brasil. Em 2022, foi desbancada só por Macapá, onde o índice vem aumentando pela crescente violência do tráfico de drogas na Amazônia, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.>
Ninguém é obrigado a saber estatística, mas deve notar que isso é alarmante. Essa taxa se refere ao número de mortes dividido pela população. Portanto, em Salvador, são assassinadas mais pessoas proporcionalmente do que em quase todas as capitais brasileiras. E ainda: a taxa soma tanto homicídios praticados por civis, quanto mortes provocadas pela polícia.>
É nítida a subida dos índices nas regiões Norte e Nordeste do país, desde 2010, causada pela ação nacional do tráfico de drogas, que se deslocou do Sudeste para conquistar mercados e agrupar facções que já brigavam por aqui, principalmente nos grandes centros, como Salvador e Feira.>
Agora, duas facções nacionais, uma de São Paulo e outra do Rio de Janeiro, não são mais somente fornecedoras de armas e drogas, mas atuantes localmente no Norte-Nordeste, como se fossem empresas responsáveis pelo ciclo completo da droga.>
Os recentes casos envolvendo disputas a tiros em Salvador, inclusive com mortes de civis e policiais, além de assaltos a ônibus e roubos de celulares, demonstram que facções intensificaram seus domínios e diversificaram suas atividades, buscando novas formas de financiamento para suas “guerras”.>
No entanto, a resposta da Bahia, à la brasileira, continua sendo de enfrentamento no bairro, mais do que inteligência e investigação contra chefes do narcotráfico, inclusive àqueles já presos e “na ativa”. Resultado: fogo cruzado, colocando em xeque a população e a própria polícia. Se câmeras não são instaladas nas fardas, mortes por intervenção policial continuam na casa das mil por ano, perdendo só para o Rio de Janeiro.>
Enquanto houver vulnerabilidade social, principalmente juvenil, haverá comunidades sequestradas pelo tráfico. Enquanto houver decreto fomentando arma, haverá desvios para facções. E isso deixa Salvador violenta? Sim, e as ações do Estado não mudam. Cadê os especialistas? Ainda não foram consultados.>
*Thiago Augusto Ferreira da Costa é doutorando em urbanismo e segurança pública pela UFBA e bacharel pela Academia Policial Militar do Paraná. >