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Gabriel Galo
Publicado em 19 de maio de 2019 às 18:10
- Atualizado há 2 anos
O vexame no placar final Vitória 1×3 São Bento mostra que o buraco do Vitória é muito mais embaixo. Precisa-se urgentemente de um psicólogo e um mediador.>
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Salvador, 18 de maio de 2019>
(Rodada 4 de 38)>
Cabeças rolaram>
Os cinco dias entre o acontecido em Campinas e o que estava prestes a acontecer em Salvador foram agitados nos lados de Canabrava. O descontentamento era evidente em todos. E não se fazia questão de esconder.>
A limpa do elenco prosseguiu. Victor Ramos se despediu melancolicamente para assinar com o CRB. Leo Ceará, igual. Andrigo, o destruidor de esperanças, o rebaixador-mor da República, apesar de ainda com contrato, está fora dos planos, solicitando rescisão para ir rebaixar outro clube por aí.>
Triste é perceber que ainda há muito o que limpar.>
Cabeças chegaram>
Com o máximo de pompa possível para nomes que não vão mudar a vida de ninguém, foram anunciados em entrevista coletiva três “quens”. Não entendeu? Explico.>
Vou falar o nome dele e você responde a primeira coisa que vem na cabeça.>
Matheus Manga!>
Quem?>
Dedé!>
Quem?>
Entendeu agora?>
Convenhamos, não só de “quem?” foram as apresentações. No mesmo dia foi apresentado Marciel, volante que surgiu muito bem no Corinthians de Tite e depois decaiu vertiginosamente. Na esteira dos anúncios, as boas-vindas foram dadas a Anselmo Ramon (Ramon, se não for o Menezes, já chega com desconfiança), a Felipe Gedoz e a Zé Ivaldo, esta dupla última envolvida numa negociação que deve levar Léo Gomes ao Athletico-PR.>
(Parêntese para a forma física)>
Felipe Gedoz é camisa 10 de estilo que mescla clássico com verticalidade; nos raros bons momentos, ele lembra Jadson, guardadas as devidas proporções. Um jogador raro, não fosse a sua batalha há anos para entrar numa forma física aceitável.>
Por causa disso, foi pouco aproveitado no Athletico-PR, sendo emprestado em 2018 ao Goiás e este ano chega ao Vitória.>
De barriguinha saliente, velocidade prejudicada e com ancas largas evidentemente alguns números acima da recomendação a atletas profissionais, Gedoz chega para assumir a posição que caiu no colo de Nickson.>
Nickson que há anos passa pelo mesmo calvário.>
Pré-jogo>
Os pouco mais de 7 mil sofredores que se dispuseram a apoiar a equipe no Barradão chegaram desconfiados. Não haveria de ser diferente. A equipe não engrena, não mostra evolução. Na escalação, engoliram mensagem de esperança.>
Andrigo nem relacionado; Lucas Arcanjo, mais um goleiro da base, faria sua estreia; Farinha substituiria Matheus Rocha na direita; Marciel já veio pra jogar; por fim, Nickson herdava a 10.>
Enquanto apertávamos insistentemente o interruptor que ligava a luz no fim do túnel, ao mesmo tempo ele não funcionava. Afinal, Ramon voltava à zaga, Capa destruía a 6 e Neto Baiano começaria mais um jogo com a 9.>
Menos mal, ainda assim. Até porque, do outro lado, haveria de estar o São Bento, recém-rebaixado à segunda divisão do Campeonato Paulista e sem vencer nas três primeiras rodadas da Série B.>
O fim desde o começo>
A postura do Vitória era claramente diferente. Mais bem posicionado em campo, dominava as ações. Saía com tranquilidade e, embora não fosse incisivo, mantinha o controle do jogo. Em raras estocadas, o São Bento chegava pelo lado esquerdo, irresponsavelmente ocupado simultaneamente por Ramon e Capa.>
Marciel e Léo Gomes mostravam bom passe, Nickson se apresentava bem, Ruan Levine – ex Potó – se movimentava bastante, Felipe Garcia lutava e Neto Baiano…>
Bem, Neto Baiano adicionava uma nova especialidade ao seu repertório único. Além do tradicional “se joga no pivô, perde a bola, pede falta e levanta reclamando”, ele está treinando arduamente a “cobrança de falta de longe na barreira”.>
Passava dos trinta do primeiro tempo quando, em rápido contra-ataque, o trio Felipe Garcia, Nickson e Ruan Levine desconsertou a zaga sorocabana, resultando no pênalti cometido em cima de Levine.>
E foi neste instante que o fim – vexaminoso, pois – estava sacramentado.>
O drama do antiprofissional>
Apontada a marca da cal, Nickson, autor de três gols de pênalti só este ano, pegou a bola e se posicionou para cobrar. Mas como todo castigo para quem escala Neto Baiano é pouco, o mimado veterano deu chilique.>
Queria ele cobrar. Mostrou a todos a sua total insatisfação. Reclamou com Nickson. Reclamou com Tencati. Mesmo quando confirmado que ele não iria cobrar, botou-se ao lado do garoto infernizando a sua cabeça. Sendo o cobrador oficial ou não, não era o jeito de lidar com a situação.>
Nos dramas psicológicos que no campo de jogo se veem visando desestabilizar o adversário, Neto Baiano jogou contra. Situação absolutamente inaceitável.>
Nickson, fora de si, perdeu o pênalti. Neto continuava esbravejando.>
Redimiu-se, em parte, o garoto. Na cobrança do escanteio imediatamente após a defesa do goleiro no penal, meteu a bola na cabeça de Felipe Garcia, que balançou as redes sorocabanas.>
Era o gol à frente. Mas ninguém em sã consciência poderia entender que coisa boa estaria no horizonte. Pouco tempo depois, Neto perde um gol feito dentro da pequena área.>
O intervalo vem e, apesar da vantagem, o clima era péssimo.>
São Bento de Sorocaba>
O segundo tempo nasceu com Neto Baiano voltando a campo. Ajustado, o time paulista adiantou a marcação, pressionando a saída de bola baiana. Passou a dominar o campo, fazendo com que o rubro-negro, incapaz de reposicionar-se, passasse a trabalhar na base do chutão.>
E num salseiro danado pela esquerda – por onde mais? – o São Bento achou o empate que todo mundo sabia que viria. O medo agora era outro: se o empate seria suficiente ou se a virada paulista estava em construção. Elton sobe sozinho e faz o primeiro gol do São Bento no Barradão (Foto: Jhony Pinho / Agif / Estadão Conteúdo) Nos pés de Régis, o mais que problemático avante sorocabano – apesar da pouca idade acumula indisciplinas e dispensas que envolvem até cocaína -, o São Bento sabia poder mais. Pois quis, pois conseguiu.>
Porque algo que é tão certo quando o sol que raia todos os dias é o desmoronamento psicológico rubro-negro quando ameaçado.>
O segundo veio.>
O terceiro também, depois de saída de Everton Sena à la David Luiz no 7 a 1, abrindo um buraco na defesa e causando um gol vexatório, ápice na tentativa desesperada de Ramon de tirar a bola com a cabeça quando deitado no gramado, dando números finais à partida: Vitória 1×3 São Bento.>
Tem jeito que dê jeito?>
A desorganização rubro-negra não vem de agora. Desde o Brasileirão de 2016 e o famoso “toca pra Marinho”, a tática do Vitória se resume ao caos. Caos na administração, caos em campo, caos nas contratações, caos na relação com a torcida. Vitória, seu nome é caos.>
Com a recorrência dos problemas – sempre os mesmos – criou-se a aura que rodeia a todos, a de que basta uma faísca para que o Vitória se incendeie e morra queimado.>
Basta um gol tomado, um drible sofrido, um pênalti perdido. Basta um bate-boca com um veterano em má fase há 4 anos, mas que se vê como craque indiscutível. Basta ver a escalação de certos nomes.>
A questão, portanto, ultrapassa as quatro linhas. Vai além de estudos táticos e treinamentos e preparação física. O buraco do Vitória é muito mais embaixo. Há, por certo, uma malfadada certeza psicológica que garante a derrota. Há rupturas internas que criaram fendas de relacionamento no grupo.>
Na busca por necessários reforços na sequência da competição, tem o Vitória de buscar profissionais de outras searas. O mais urgente deles – e um tabu no mundo do ludopédio – é um psicólogo. E, talvez, até um mediador para criar pontes que unam os atletas em prol de um objetivo comum.>
Estes dois, diria eu que são ainda mais importantes que o 9 e o 6 que não temos e quaisquer outros jogadores ou treinador que porventura venham.>
Gabriel Galo é baiano, torcedor do Vitória, administrador e escritor, cronologicamente falando. É autor de “Futebol é uma matrioska de surpresas: Contos e crônicas da Copa 2018”, disponível na Amazon. Texto publicado originalmente no site Papo de Galo.>