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Gabriel Galo
Publicado em 28 de maio de 2019 às 14:11
- Atualizado há 2 anos
O empate entre rubro-negros em Goiânia apresentou alguma evolução, mas os mesmos problemas. Atlético-GO 1×1 Vitória.>
***>
Goiânia, 26 de maio de 2019>
(Rodada 5 de 38)>
Substituição em quem substitui>
Perder para uma equipe que não vencia há 15 jogos, recém-rebaixada no estadual, em pleno Barradão só poderia trazer consequências. E trouxe. A bola da vez na limpeza aparentemente interminável do Vitória foi o técnico Claudio Tencati.>
Com histórico pautado por 7 anos de trabalho no pequeno Londrina, o comandante chegou ao Barradão sabendo que o cenário seria o inverso do que tinha experimentado até então. Se no Paraná teve estabilidade e pouca pressão, desembarcou em Canabrava no meio do furacão e precisando de resultados imediatos. Era, neste sentido, uma aposta de alto risco.>
Teve que sair.>
Novo comandante>
Para tomar o lugar de Tencati veio Osmar Loss. Chegou com um respaldo importante de construir uma identidade de jogo no Vitória. Podem mudar os técnicos, não muda o estilo de jogar futebol.>
Esta é, pelo menos, a intenção. A realidade, no entanto, pode indicar uma potencial aposta tão problemática quanto a de Tencati.>
Osmar Loss teve carreira longa e vitoriosa na base. E assumiu seu primeiro grande desafio profissional em 2018 no Corinthians. Assumiu credenciado pelo apoio incondicional de Carille, que seguia ao Oriente Médio. Era conhecido e respeitado pelo grupo. Mas falhou.>
Foi demitido depois de poucos jogos. Este ano, dirigiu o Guarani em algumas rodadas do Paulista. Foi demitido, assim como fora também do Internacional.>
Apesar do vasto currículo de formador, como técnico profissional não foi capaz de alcançar bons resultados. Mesmíssimo problema de João Burse, para ficar num prata da casa.>
Ainda assim, vale esperar a chegada da Copa América e sua mais que bem-vinda pausa para entender como o time flui sob suas ordens.>
Quem escala?>
Goiás, em anos recentes, tem colocado sempre dois clubes revezando temporadas na primeira divisão. O Goiás, que subiu em 2018, e o Atlético-GO, adversário do domingo. Um oponente de respeito, campeão goiano que trazia na carteira 94% de aproveitamento no seu estádio em 2019.>
O duelo de rubro-negros estaria fadado a tomar parte sob um sol divisível pra cada um e ainda sobrava troco de calor. Temperatura alta que já havia atrapalhado o juízo no jogo em Ribeirão Preto, na abertura do martírio da Série B.>
Se por um lado Loss optou por um meio-campo mais seguro, com três volantes na contenção, por outro, inexplicavelmente, Ramon, Capa e Neto Baiano foram a campo como titulares.>
Era necessária melhora demais para compensar o erro que já se formava na escalação original.>
Melhora?>
O começo de jogo do Vitória foi animador. Saindo bem para o jogo, trocando passes com consciência, chegando ao ataque com qualidade. E o bom começo foi premiado com um gol de escanteio aos 8 minutos, na testada precisa de Everton Sena.>
Vitória na frente, 1 a 0.>
A equipe continuou bem em campo, apesar de Neto Baiano, em tarde mais uma vez infeliz – importante que se entenda que esta é a regra das atuações do nosso 9.>
(Parêntese para a consistência futebolística de Neto. Aos 5 minutos, fez valer seu primeiro movimento confuso característico: a falta de longe na barreira. É o verdadeiro carimbador maluco! Mais à frente, tratou de garantir o segundo movimento: cruzamento e falta no goleiro. Pra ganhar o 10, faltou apenas o seu melhor movimento: faz o pivô, perde a bola, se joga pedindo falta e levanta reclamando com o juiz. Consistência futebolística é isso também: consistentemente ruim.)>
A partir dos 25 minutos, no entanto, a postura do Atlético-GO mudou. Marcou mais em cima, fazendo pressão. E como acontece todas as vezes, o Vitória sentiu.>
Recuou e ficou inoperante ofensivamente. Compreensivelmente, a cabeça da área marcava mal. Era, pois, o primeiro jogo da formação. Os espaços foram se abrindo. Do lado esquerdo da defesa, a Avenida Capa, que quando cruza com a Rua Ramon, lascou-se tudo. Ataque do Atlético Goianiense foi perigo constante à defesa do Leão (Foto: Paulo Marcos / ACG) Ronaldo, o goleiro reintegrado à titularidade depois das falhas em sequência de seus três substitutos, começou a aparecer como grande nome do time. Sinal de que algo não ia bem. Questão de probabilidade: quanto mais chances ele salva, maior a probabilidade que uma passe.>
O intervalo chegou com um certo alívio da pressão um tanto desordenada do Atlético-GO.>
Esse filme eu já vi>
Nem bem o segundo tempo tinha começado, a tragédia anunciada se fez.>
Jarro Pedroso, arisco, pedalou pra cima de Ramon, que abriu o compasso e cometeu pênalti – duvidoso para alguns, certeiro para outros, mas impossível de se dizer inexistente.>
Existem algumas certezas nessa vida. A morte, claro, é uma delas. Impostos, diz o economista, é outra. A falha de Ramon se enquadra nas leis universais da certeza irrevogável.>
Na boa cobrança, o empate. Atlético-GO 1×1 Vitória. De pênalti, o gol de empate do time da casa (Foto: Paulo Marcos / ACG) A todos vinha na garganta o gosto amargo do déja vù. De que já se sabia o final da história. Porque o Vitória, sim, é o time da virada. Sofreu contra Botafogo-SP, Guarani e São Bento e foi vencedor contra o Vila Nova. Não podemos dizer que não há emoção em jogos do rubro-negro baiano.>
Mas dessa emoção estamos todos cansados.>
Quase>
Não há castigo suficiente para quem mantém Ramon, Capa e Neto Baiano em campo e ainda por cima manda pro jogo o tal do Ítalo, glorioso “quem?” que mostrou que bola não é muito com ele. Só a intercedência superior para prover resgate.>
E ela veio pelo assoprador de apito.>
Aos 38 do segundo tempo, uma falta dura, mas para amarelo, virou vermelho direto pro goiano.>
O um a mais mudou o cenário do jogo.>
Ruy, meia que tinha entrado no lugar de Léo Gomes, encontrou um pouco mais de espaço para jogar. O Vitória voltou a atacar, embora o lado esquerdo de sua defesa se esforçasse para estender tapete vermelho ao ataque atleticano.>
Foram chances perdidas lá e cá, num jogo que passou a ser surpreendentemente agradável de se ver.>
Até que aos 49, no apagar das luzes, quando todo lance é definitivo, a bola sobra limpa para Marciel. Ele chuta colocado, com força. Ela sobe em direção ao ângulo esquerdo do goleiro Kozlinksi.>
Apreensão. Expectativa.>
Que desfecho maravilhoso para assegurar três pontos valiosos! A retomada contra um adversário forte, fora de casa, fugindo do Z4.>
Hoje sim! Hoje sim!>
Mas goleiro existe no futebol para ser o anticlímax. É o vilão do grito de gol, do êxtase. Disse certa feita em sua coluna Bate-Bola, na Tribuna da Imprensa, Don Rossé Cavaca, pseudônimo de José Martins de Araújo Júnior (1924–1965):“Desgraçado é o goleiro, até onde ele pisa não nasce grama”.>
José Martins de Araújo Junior, jornalista brasileiro (1924-1965).Kozlinski voou, espalmou a bola com endereço certo e cortou no meio o grito de gol que já era realidade.>
Hoje não…>
Valeu pelo ponto e por algo mais>
Foi pouco tempo de bom futebol. O bom começo, o final em superioridade numérica (ou não, afinal, quem joga com Neto Baiano, joga com um a menos). O recheio foi sufoco.>
Pode-se, ao fim e ao cabo, aprender boas lições com este empate.>
Vale pelo ponto conquistado fora de casa contra um oponente com altíssimo aproveitamento e que briga na parte de cima da tabela.>
Vale para que não reste dúvida de que Ramon, Capa e Neto Baiano não têm condições de jogo. E que se precisa de um lateral direito de ofício.>
Vale para que se treine saída de bola sob pressão – não é possível que sempre o time seja acuado desse jeito.>
Vale até para interromper o ciclo de viradas que maltratava o juízo de todo mundo.>
O trabalho de Osmar Loss está apenas começando. O caminho é longo. O temerário Z4 continua sendo realidade. É fundamental ter em mente que algo palpável em melhoria efetiva vem só depois da pausa para a Copa América. Até lá, vai ser sofrido. Principalmente se insistir em Ramon, Capa e Neto Baiano. Com estes, não há possibilidade de bom trabalho.>
Gabriel Galo é baiano, torcedor do Vitória, administrador e escritor, cronologicamente falando. É autor de “Futebol é uma matrioska de surpresas: Contos e crônicas da Copa 2018”, disponível na Amazon. >
O Diário da Série B é uma série de 38 capítulos, escritos após cada jogo do rubro-negro. Texto originalmente publicado no site Papo de Galo.>