Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Gabriel Galo
Publicado em 16 de julho de 2018 às 10:01
- Atualizado há 2 anos
Começou quando, do nada, assim, num estalar de dedos, tinha um dia inteiro sem jogo. É golpe! Daí, quando parecia estar tudo bem, de novo. Ah, não! Mas é muito golpe! Depois veio a sacanagem maior: dois dias inteiros sem bola rolando! Não é mais golpe. É o cúmulo da xibiatagem coletiva! Logo na sequência, pá-pum!, veio mais uma vez os dois dias vazios. Chorei.>
Chorei um choro sentido, doído. Daqueles que soluçar, de dilacerar o peito, de querer largar tudo. De que vale a vida sem Copa do Mundo? Adeus, mundo cruel! Vou-me embora pra Passargada, com passagem só de ida.>
A questão que corrói a alma é que era sabido, que tinha data para apagar. E o fim era ontem, o tal do quinze de julho de dois mil e dezoito. Não é que não soubéssemos, portanto. É que não queríamos mesmo. Mas a gente é bicho besta, que confia na esperança das causas impossíveis. Valhei-me, meu Santo Expedito, prorroga a danada da Copa até pra sempre, na moral!>
Como sói ocorrer quando o coração supera a razão, tal qual a Croácia numa final de Copa do Mundo, a gente desaba ao encontro da realidade. Não adianta lutar contra. Acabou, bicho. Acabou! Aceita, cara! Aceita que dói menos!>
Assim, nesta segunda-feira – ainda por cima numa segunda! Por que tão sádica, ó, vida? – saímos às ruas um exército de zumbis carregando nos olhos a tristeza e a desolação. Fossem os de gravata, donos da caneta-que-tudo-pode, preocupados com a saúde de nós, seres humanos pretensamente racionais, a Copa acabaria era numa quinta-feira. Dia seguinte, SEXTOU!, fim-de-semana começando. Veja bem como a gente passaria com mais tranquilidade! E ainda garante a resenha sem tratar de produtividade. Só vi benefícios. Taí, FIFA, a proposta que alterará este estado nefasto da multidão de ombros caídos e de costas curvadas. Se não de maneira definitiva, pelo menos reduzida ao mínimo. Palavras da salvação.>
A construção que nos afeta a saúde tem nome e sobrenome, causa e consequência. Há de ser reconhecida pela Medicina como epidemia que assola a humanidade de quatro em quatro anos. Doença severa, de difícil tratamento. É fato irrefutável, verdade absoluta!, a Depressão Pós-Copa.>
A condição é agravada por uma série de fatores. Sejam eles sociais ou econômicos – ó, vida!, você de novo a nos sabotar! – ou principalmente, futebolísticos. Porque sem nem meio-termo ou meio do caminho, vem o Brasileirão por aí. O nível, meu povo, cai de paraquedas que não abre. E eu tenho medo de altura.>
Que poderemos dizer, então, nós baianos, coitados, sofridos, lascados, que trocaremos as batalhas de nações por meias-bombas num escárnio contra o rebaixamento? Garçom, traz um galão de água senão eu desidrato de tanta lágrima que sai de mim.>
Mas um dia, eventualmente, a dor passa. Sim, o único remédio para a Depressão Pós-Copa é o tempo, aplicado a conta-gotas. Nos adaptamos, nos reacostumamos. Lá no longe, esqueceremos do conforto da ilha da fantasia criada em campos russos neste verão europeu nestes gloriosos 31 dias que se encerraram há pouco.>
Ah, mas era tão bom! Como era!>
E secretamente contaremos os dias para sermos contaminados uma vez mais. E nem adianta vir com vacina, que eu não quero imunidade pro espetáculo. Garçom, mais uma dose! Mas desce daqui a quatro anos, faz favor, que preciso desintoxicar. Enquanto isso, traz a conta. E um lenço.>
Gabriel Galo é escritor.>