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Bruno Wendel
Publicado em 30 de abril de 2021 às 18:06
- Atualizado há 2 anos
Ajoelhada no asfalto quente, Dionésia Pereira de Barros, 58 anos, esbravejava a sua maior dor: "eu sei que erraram, mas os seguranças deram eles na bandeja para a morte". Ela repetiu isso inúmeras vezes durante o protesto, que aconteceu na manhã desta sexta-feira (30) no bairro de Fazenda Coutos III, pelas mortes de Bruno Barros Silva, 29, e Ian Barros Silva, 19. Ela é mãe de Bruno e avó de Ian, que foram encontrados brutalmente assassinados no porta-malas de um carro na Polêmica, após terem sido flagrados furtando na loja do supermercado Atakarejo, em Amaralina, na última segunda-feira (26). A família diz que as vítimas foram entregues a traficantes do Nordeste, responsáveis pelas mortes. >
Cerca de 25 pessoas, entre parentes e amigos das vítimas, pediram por justiça na Rua Almeida Júnior, onde tio e sobrinho moravam. O protesto aconteceria na porta do Ministério Público do Estado (MP-BA), numa tentativa de pressionar o andamento das investigações, pois até agora ninguém foi preso. No entanto, o local foi transferido pelos manifestantes para a Fazenda Coutos III, para que outras pessoas da comunidade pudessem participar.>
Ainda na manhã desta sexta, o MP-BA se manifestou sobre o assunto. Segundo o órgão, ao tomar conhecimento da morte dos primos, o MP-BA adotou as providências “cabíveis nesta fase preliminar de apuração, autuando uma notícia de crime e encaminhando ao Núcleo do Júri da Capital, para fins de acompanhamento das investigações que, conforme noticiado pela imprensa, já vêm sendo realizadas pela Polícia Civil”.>
Protesto O protesto começou por volta das 11h. Com camisas brancas e cartazes estampando as fotos de tio e sobrinho, os manifestantes fecharam a rua, no trecho pouco depois da unidade da Base Comunitária de Coutos. O trânsito ficou congestionado por aproximadamente 45 minutos. Entre as pessoas presentes, estava a mãe de Ian, Elaine Costas Silva, 37. Ela contou que tio e sobrinho encontrados mortos pediram dinheiro para pagar carnes que furtaram. (Foto: Reprodução) “Como é que pode isso? Eles poderiam ter evitado tudo isso. Pra que os seguranças do Atakarejo entregaram eles aos traficantes? Porque não chamaram a polícia? Os seguranças pediram R$ 700 para pagar as carnes. Bruno ligou para uma prima dizendo que os seguranças queriam o dinheiro para pagamento do furto. A gente estava providenciando. Já tínhamos conseguido uns R$ 500, mas eles já tinham dado o meu filho e o tio dele para os traficantes”, disse Elaine em prantos. >
Ainda bastante emocionada, Elaine revelou que até agora o Atakarejo não procurou as famílias. “Não tiveram a humanidade de falar com a gente. Não recebemos uma ligação sequer do Atakarejo. Enterramos eles com muita dificuldade, pedindo dinheiro a um e a outro. Enterrei meu filho sem poder ver o rosto porque estava todo desfigurando. O tio dele teve o coração arrancado. Foi muita brutalidade que fizeram. Tudo porque os seguranças resolveram fazer justiça com as próprias mãos”, desabafou Elaine. >
Já no final, a mãe de Bruno, que estava em casa à base de medicamentos, chegou à manifestação acompanhada de outros parentes. Ela aproveitou a presença da imprensa e ajoelhou no asfalto e fez um apelo por justiça. “Eles não estavam armados. Queremos que todos eles paguem pelos seus atos. Queremos justiça. Meu filho e meu neto pegaram as carnes para matar a fome da família. Eles morreram de barriga vazia”, bradava. >
Relembre o caso Os corpos foram encontrados no porta-malas de um carro com marcas de tortura e de tiros, e foram identificados pela polícia. Segundo os familiares de Bruno e Ian, após serem supostamente acusados de furto no supermercado, os dois teriam sido entregues a traficantes por funcionários do estabelecimento. >
“Ficamos sabendo que um gerente chamou os traficantes da área, que botaram os dois na mala de um carro. Se eles estavam roubando, tinham que chamar a polícia, e não fazer isso”, disse uma das familiares dos rapazes, enquanto aguardava a liberação dos corpos no Instituto Médico Legal (IML) Nina Rodrigues, no último dia 27.>
Fotos que circulam nas redes sociais mostram tio e sobrinho em três momentos. O primeiro logo após eles terem sido flagrados roubando carne na rede de supermercado. Os dois estão agachados numa área interna do estabelecimento, ao lado dos produtos que teriam sido furtados e de um homem, apontado como segurança da loja.>
O segundo momento mostra tio e sobrinho sentados numa escadaria do Boqueirão. As últimas fotos mostram os corpos, ambos com os rostos deformados por conta dos disparos. >
“Ficamos sabendo que um gerente manteve contato com os traficantes, que chegaram lá pouco depois. Eram mais de 10, todos armados, e levaram eles para o Boqueirão. Lá, deram mais de 30 tiros de metralhadoras, pistolas, escopeta e ainda deram facadas”, disse um amigo das vítimas, que também teve o nome preservado. >
Por meio da assessoria de comunicação, a rede de supermercado informou que "o Atakarejo é cumpridor da legislação vigente, e atua rigorosamente comprometido com a obediência às normas legais. Não compactua com qualquer ato em desacordo com a lei". >