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Da Redação
Publicado em 22 de dezembro de 2019 às 09:47
- Atualizado há 2 anos
O carismático Ubirajara Penacho dos Reis, mais conhecido como Bira, que integrou durante muitos anos os programas comandados por Jô Soares, morreu na manhã deste domingo (22), aos 85 anos.>
O baiano dono de uma risada famosa tocava baixo no grupo Sexteto, do 'Programa do Jô', na TV Globo, e costumava ser consultado pelo apresentador para diversos assuntos.>
Segundo o portal R7, o músico veio a óbito em decorrência de uma parada cardíaca, dias após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A família de Bira agradeceu o carinho de todos.>
Bira estava internado no Hospital Sancta Maggiore, unidade Mooca, em São Paulo, após sofrer o AVC. >
Em novembro deste ano, Bira foi visto de bengala ao desembarcar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Na ocasião, o artista foi extremamente simpático, posou com fãs e para os paparazzi.>
Bira participou em 2018 do The Noite, programa de Danilo Gentil, do SBT, e falou sobre sua carreira na indústria da música.“A música apareceu aleatoriamente, porque meus pais queriam que eu fosse médico. Até o dia que eu vi o começo de uma autópsia e saí correndo”, relembrou Bira.O músico tornou-se uma estrela no extinto Programa do Jô, na Globo, por tocar baixo elétrico diariamente na atração e também por seguir as piadas do apresentador com seu riso peculiar.>
Ao falar sobre o Programa do Jô para Danilo Gentil, Bira recordou como a atração marcou sua vida.“Tinha muito orgulho de trabalhar naquele programa. Ajudou a mudar minha vida. Fiz muitos amigos”, disse, na ocasião.História Bira do Jô tornou-se conhecido por tocar baixo elétrico no Sexteto do Jô, que se apresentava diariamente no Programa do Jô, sempre seguindo as piadas do apresentador com seu riso peculiar.>
Em texto publicado no perfil da banda BassTotal, da qual Bira fazia parte, Bira era conhecido entre amigos e familiares como um verdadeiro “Google” do mundo da música. Ele começou a carreira como cantor cedo, ainda na Bahia, e mudou-se para São Paulo no final da década de 1960.>
Quem sempre viu o músico com um baixo elétrico, nos mais de 40 anos de São Paulo, não imagina que, no início da carreira em Salvador, ele preferia exercitar as cordas vocais.>
Fã de samba-canção, bossa nova, jazz e bolero, Bira resolveu retornar a função de cantor com o grupo Bira Bossa Jazz por conta dos 50 anos da Bossa Nova. Ao seu lado estava o amigo e parceiro Osmar Barutti, pianista e companheiro de programa do Jô Soares.>
Em 1961, cantava no quarteto da boate Montecarlo e depois foi cantar no Hotel da Bahia, com o trio do pianista Jessildo Caribé, da família do pintor argentino/baiano. Nessa época, ele conta que o local era o grande palco por onde desfilavam Elizeth Cardoso, ZimboTrio e Wilson Simonal, entre outros grandes nomes da música brasileira.“Lá (no Hotel da Bahia) vi o Luiz Chaves, do Zimbo Trio. Não sosseguei enquanto não aprendi a segurar no contrabaixo da mesma forma que ele. Vendo isso, o Luiz Chaves disse que eu levava jeito e me incentivou a estudar. Pergunta se eu estudei?”, diz.Cinco anos antes disso, em 1956, Bira, prestes a entrar no Exército, iniciava a carreira cantando no grupo Quinteto Melódico Itapuã, quando foi convidado para se apresentar num clube da cidade de Senhor do Bonfim, próxima a Juazeiro. Sentado, esperando para cantar, um rapaz tímido, calmo, era uma das atrações. Vinha precedido de alguma fama, pois tinha passado pelo Rio de Janeiro e convivido com os grandes músicos do início da década de 1950. Era João Gilberto que, dois anos depois, revolucionaria a música brasileira cantando Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius, dando início ao ritmo musical que colocou o Brasil para sempre no contexto mundial da música. Bira nunca mais reviu João.>
A vontade de cantar profissionalmente mesmo surgiu quando foi convidado a ouvir o disco de um trompetista americano que também cantava. Era Chet Baker. Disse em alto e bom som: “Quero cantar assim, um dia na vida.” Em 1959, entusiasmado com a chegada da bossa nova, Bira participou ao lado dos então desconhecidos Gilberto Gil e Caetano Veloso do I Festival de Bossa Nova da Bahia. Passou também a ouvir músicas de outras praças, como o Rio de Janeiro, e acabou ficando fã do grupo Os Gatos. “Era um conjunto maravilhoso com Durval Ferreira, Bebeto, Eumir Deodato e Hélcio Milito. O Luiz Eça se revezava com o Eumir.”>
Ainda conforme o texto publicado no Facebook da banda, o auge da Bossa Nova Bira viveu na Bahia. Os grandes músicos viajavam para lá e os conterrâneos também não faziam feio. Ele lembra que de 1961 a 1967 não faltou trabalho.“Em Salvador, havia três casas de chá onde as orquestras tocavam às tardes. A coisa era tão boa que os músicos que excursionavam por lá nos perguntavam por que queríamos tanto sair da Bahia.”Bira foi para São Paulo a passeio e acabou ficando. “Um frio que vou te contar. Cheguei de ônibus e já fiquei com vontade de voltar na mesma hora.” O músico tinha como meta inicial morar na Cidade Maravilhosa. Mas um contratempo manteve Bira na cidade da garoa. E foi em São Paulo que conheceu um outro contrabaixista de grande talento que ia mudar definitivamente a vida do músico: Manoel Luiz Lameira Viana, mais conhecido como Chú Viana.>
Freqüentador assíduo do lendário Ponto dos Músicos, na esquina da Avenida São João com a Avenida Ipiranga, o irreverente Chú Viana apadrinhou Bira. Um dia, foram a um clube e ficaram sabendo que o Chacrinha procurava contrabaixista. Chú indicou Bira. Como não tinha baixo elétrico, Bira arrumou um emprestado do músico José Roberto, o “Branco”.>
Aprovado no programa do Chacrinha, ainda de acordo do perfil da banda BassTotal, Bira ficou tocando com o instrumento emprestado. Seis meses depois, Chacrinha resolveu levar seu programa para o Rio de Janeiro e Bira permaneceu em São Paulo.>
Em 1970, foi convidado para trabalhar no programa Silvio Santos e, desde então, passou a ter emprego fixo. Entrou para a banda do Jô Soares e foi nesse grupo que formou uma de suas maiores amizades. O pianista Osmar Barutti, parceiro, amigo e vizinho de Bira por quase 20 anos. Incentivador do instrumentista e cantor, o maestro Osmar afirmou que Bira era humilde a ponto de estudar canto.>
“Ele é um cantor excelente, mas é perfeccionista”, diz. “Outro dia, o Jô recebeu a atriz Edel Holz, cujo nome de solteira era Edelweiss Lemos. De improviso, o Bira cantou a famosa música americana que tem o mesmo nome da moça. Todo mundo ficou arrepiado”, lembrou Barutti, na época da publicação.>
E foi a dupla de amigos que teve a ideia de montar o Bira Bossa Jazz. Na excursão pelo Brasil, eles ainda tiveram a companhia de Elias Pontes, na bateria, Marcos Teixeira, na guitarra, Hugo Cardoso, no baixo, as cantoras – mãe e filha – Maria Rosário e Gabriela Feliciano, e Beto Campos, na produção artística.>
No repertório estava, claro, “Chega de Saudade”, “Garota de Ipanema”, “Barquinho” e “Wave”, desfiada no palco por um remoçado Bira, que mostrou que não era só bom de contrabaixo, de gargalhada e de causos, mas também de gogó.>