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Larissa Almeida
Publicado em 10 de abril de 2024 às 06:00
Desde que se mudou para o bairro Parque São Cristóvão há dez anos, o motorista de aplicativo Fernando da Silva, de 43 anos, já tem como certa a repetição de uma realidade que assombra os moradores da região anualmente: a vazão da Barragem de Ipitanga 1 no mês de abril, que provoca alagamentos nas ruas do bairro e causa transtornos aos seus habitantes. Neste ano, por conta das fortes chuvas que assolam Salvador, o problema teve início no sábado (6) e piorou a tal ponto que o lugar já acumula mais de 24 horas de alagamento, conforme relatos. >
“Geralmente, todo ano, justamente no mês de abril, acontece a mesma situação e esse alagamento ocorre. Quando acontece a vazão da água da barragem, os córregos de drenagem não suportam e acaba vazando para a rua, alagando as casas e deixando os moradores numa situação bem complicada. Todo ano perdemos móveis, eletrodomésticos, tudo”, conta Fernando. >
Islan Brito, outro morador e liderança local, se queixa que sempre existe tentativa de diálogo com a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), empreendedora e responsável pela barragem, e com a Secretaria de Infraestrutura Hídrica e Saneamento Responsável (SIHS), responsável pelo Rio Ipitanga, quando os desastres decorrentes dos alagamentos acontecem, mas não há retorno dessas entidades. “Não aparecem para ouvir os anseios dos moradores e nem recebem a Associação dos Moradores do Cassange e do Conselho Comunitário de São Cristóvão na secretaria para um diálogo e solução do problema”, reclama. >
Segundo informações da Embasa, a Barragem de Ipitanga 1 está em operação desde a década de 40 e é uma das barragens utilizadas para o abastecimento de água de Salvador. A empresa explica que a vazão acontece porque “quando a barragem atinge o nível máximo de capacidade, conforme as normas de segurança de barragens, é necessário escoar o volume de água acumulado para o rio Ipitanga, abrindo aos poucos as comportas”, afirma em nota. >
Quanto aos problemas dos alagamentos que atingem as localidades de Cassange e São Cristóvão, a entidade diz que é um reflexo, principalmente, do grande volume de chuvas que caiu na bacia do rio Ipitanga, onde aponta que a manancial possui moradias ocupando irregularmente trechos em suas margens. >
“A abertura parcial das comportas da barragem de Ipitanga I, iniciada na semana passada de forma gradual, é uma medida necessária para garantir a segurança da estrutura e principalmente da população residente à frente do barramento. Contudo, independentemente da abertura das comportas, chuvas intensas podem resultar em alagamentos nestas localidades, como já verificado em outras ocasiões”, diz trecho da nota. >
Macrodrenagem >
Para os moradores do Parque São Cristóvão, a esperança de solução para esse problema consistia na execução da obra da macrodrenagem do Rio Ipitanga nos trechos que abarcam os bairros afetados por alagamentos – o que não se mostrou eficiente. De acordo com a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), já existe uma obra de macrodrenagem do Ipitanga executada pela companhia, por meio do Consórcio Ipitanga, nos municípios de Salvador e Lauro de Freitas, com investimento de R$211 milhões. >
A obra é baseada em conceitos de drenagem sustentável: os alagamentos são evitados, a partir da retenção da água da chuva em seis reservatórios de amortecimento integrados à calha do Rio Ipitanga, com o escoamento da água ocorrendo de forma controlada. O entorno de cinco desses reservatórios conta com quadras poliesportivas, pistas de cooper, ciclovia, entre outros equipamentos de lazer e convivência. Além dos reservatórios, foram revestidos nove canais de escoamento e realizado o desassoreamento do rio Ipitanga, com o alargamento de sua calha. >
“O reservatório de amortecimento 01, no Parque Vila das Palmeiras está situado na localidade de Cassange e impediu que ao menos 315 mil metros cúbicos de água potencializassem os estragos causados pelas fortes chuvas na região”, pontuou em nota. >
A Conder ainda afirmou que o sistema de drenagem vem amenizando os alagamentos na região onde foi instalado, mas deve ter constante manutenção para seu bom funcionamento. “A limpeza e manutenção das calhas dos rios e canais de drenagem são de responsabilidade das prefeituras e fundamentais para que o escoamento das águas pluviais seja realizado sem intercorrências”, finalizou. >
Segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas de Salvador (Seinfra), a Prefeitura de Salvador já realizou vistoria com diversos órgãos no local para providências quanto à limpeza imediata do canal, estudos de macrodrenagem, desapropriação de casas construídas irregularmente sobre o canal, além de auxílio para as famílias atingidas pelas chuvas. >
A pasta também disse que elaborou projetos que contemplam duas sub-bacias com contribuição para o Rio Ipitanga. O projeto compreende intervenções para melhorias na Rua Bahia de São Cristóvão e adjacências, com implantação de rede de drenagem pluvial e, também, soluções de drenagem para a Rua Gabino Kruschewsky e vias transversais do entorno. >
“As soluções abrangem 35% da bacia do Parque São Cristóvão, têm orçamento previsto de cerca de R$ 10 milhões e estão em fase de captação de recursos. Além disso, esclarecemos que, para garantir a eficácia de todas as intervenções propostas na área, é essencial o bom funcionamento da macrodrenagem do Rio Ipitanga que está com obras do Governo do Estado”, disse a pasta em nota.>
O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado da Bahia (Inema), responsável por fiscalizar a segurança da barragem de Ipitanga 1 e de outras 500 barragens na Bahia, foi procurado para falar sobre o funcionamento da barragem, explicar os motivos para a vazão dela continuar alagando os imóveis no entorno e informar se as chuvas impactaram outras barragens do estado, mas não respondeu.>
Por que os reservatórios de amortecimento não foram suficientes? >
Para o engenheiro civil Luis Edmundo Campos, professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e ex-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (Crea-BA), existem duas hipóteses para a vazão da Barragem de Ipitanga 1 continuar ocasionando alagamentos. Segundo ele explica, toda barragem tem um dispositivo, denominado extravasor, para liberar sua água excedente, e ele costuma seguir um caminho que pode conter dois tipos de interferência. >
“A princípio a água que passa pelo extravasor de uma barragem segue o caminho natural do rio na parte a jusante (após barragem). Esta vazão tem que ser compatível com a calha do rio. A inundação pode ocorrer se a estiver sendo liberada a mais do que a capacidade do canal ou por obstrução do canal”, aponta. >
O especialista analisa que, uma vez que foram instalados reservatórios de amortecimento, a permanência do problema – alagamentos decorrentes da vazão da barragem – se dá porque provavelmente o canal de vazão não comporta o volume de água escoado, problema este que pode ser resolvido com a adoção de alternativas. “Se está escoando menos do que estava antes e, mesmo assim está alagando, é sinal de que o canal está com a capacidade menor do que a quantidade escoada. E existe forma de ampliar o canal, seja limpando ou criando outros canais”, sugere.>
*Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lôbo>