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Tharsila Prates
Publicado em 4 de abril de 2025 às 20:49
Dois dias após a morte do astro da música pop Michael Jackson, em 2009, a jornalista Wanda Chase relembrou para o CORREIO o êxtase que foi a visita do cantor à Bahia. Presente na gravação do clipe histórico de They Don't Care About Us em 1996, Wanda descreve a emoção dos envolvidos, a trabalheira que foi - na época, ela assessorava o Olodum - e como todos ficaram hipnotizados com a presença de Michael nas ruas do Pelourinho.>
Ela diz: "Um sobe e desce de gente no Pelourinho. Gente ansiosa, as conversas eram as mais variadas, estranhas, cada um tinha uma história para contar. 'Ele vai chegar de helicóptero', dizia um. 'Depois da gravação do clipe, vai marcar uma data para fazer show em Salvador', sonhava outro. Até que em meio a todos os boatos e versões chega Michael em um carro escuro", escreveu a jornalista, que era apaixonada por Salvador e pelos tambores dos blocos afro cuja batida também encantou o norte-americano. >
Wanda Chase morreu na quinta-feira (3) depois de complicações de uma cirurgia para tratar um aneurisma dissecante da aorta. A cremação ocorreu na tarde desta sexta, no cemitério do Campo Santo, na capital. Como ela era a cara de Salvador, do Olodum e do Centro Histórico, o CORREIO republica o texto que ela, baiana de Manaus, fez sobre a vinda de Michael. Confira:>
Era um sábado, fazia sol em Salvador, mas todas as atenções estavam voltadas para uma estrela: Michael Jackson. A excitação era grande, e eu, na época assessora de imprensa e conselheira do Olodum, estava lá para coordenar a imprensa.>
Salvador recebeu jornalistas do Brasil e de vários países para documentar aquele momento, Michael no Brasil, e ele escolheu a Bahia para começar a gravar o clipe. Vamos voltar a fita - como falamos na tv.>
A produção, na verdade, começou na sexta-feira. Entrevista no Olodum, com Spike Lee, Quince Jones, assessores, a diretoria do Olodum. A casa ficou cheia e João Jorge com um sorriso de felicidade. O ensaio, na véspera do grande evento, a gravação do clip, na Praça Jubiabá, o Pelourinho fervia. Depois de todos os acertos, orientações, os percussionistas do Olodum desfilaram pelas ruas do Pelourinho em direção à Casa do Olodum, na Rua Gregório de Mattos.>
Parecia até sexta-feira de Carnaval, aquela descida dos músicos, Andréa, Gilmar, Pacote, Sidney, Geronimo, Marquinhos, Jorginho, Bira - que depois do clipe passou a ser Bira Jackson - e o maestro Neguinho do Samba, que parecia ser o mais orgulhoso de todos.>
O sábado começou cedo e, às seis da manhã, já estávamos agilizando tudo no Olodum. Um sobe e desce de gente no Pelourinho. Gente ansiosa, conversas eram as mais variadas, estranhas, cada um tinha uma história para contar.>
“Ele vai chegar de helicóptero”, dizia um. “Depois da gravação do clipe, vai marcar uma data para fazer show em Salvador”, sonhava outro. Até que em meio a todos os boatos e versões chega Michael em um carro escuro.>
O Largo do Pelourinho foi interditado. Fotógrafos e cinegrafistas desciam de dois a dois para fotografar, capturar imagens. Entrevista, não era permitido. No vai-e-vem de gente, eis que chega Michael Jackson.>
Luz, câmera, ação! Começa a gravação do tão esperado clipe. Michael desliza pelas pedras do Pelourinho com uma leveza impressionante. Quem está por perto fica extasiado. Não consigo tirar os olhos dos percussionistas do Olodum.>
Bira Jackson toca o tambor e dança como se estivesse reverenciando Michael. Eu, ali, tão perto e tão distante, um filme começa a passar na minha cabeça: Jackson Five, cabelo black power, o menino que se fez homem e que inspirou milhões de garotos com aquele jeito especial de dançar.>
Ainda penso: ah! Se eu soubesse dançar... Lá vem ele, despretensiosamente em minha direção, não, vai para o lado da Ritinha (Rita Castro, na época, diretora do Olodum) exímia dançarina, mas ela fica ali, parada feito uma estátua, sem esboçar um movimento. Está hipnotizada e eu também. Quem não ficaria...>