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Larissa Almeida
Publicado em 2 de abril de 2025 às 05:00
O uso do capelo tradicional, objeto comum em solenidades de formatura, não será mais obrigatório para pessoas com cabelos crespos ou volumosos. A medida foi instaurada pela Prefeitura de Salvador, por meio da criação de uma lei publicada no Diário Oficial do Município, no último domingo (30). >
Além do fim do uso obrigatório do capelo tradicional, a prefeitura determinou que, nas solenidades de formatura de instituições de ensino no município de Salvador em que se faça o uso do objeto, deve ser garantida a oferta de modelos para cabelos crespos e volumosos, além do modelo tradicional. >
A oferta, a distribuição e o aluguel dos capelos para cabelos crespos e volumosos deverão ser asseguradas pelas entidades organizadoras da solenidade. Entre os modelos que devem ser considerados, estão o capelo durag, o capelo turbante, o capelo tiara e o capelo pente garfo. >
A vereadora Marta Rodrigues (PT), que é autora do projeto de lei que foi sancionado pela prefeitura, diz que a ideia da lei surgiu da campanha #respeitameucapelo, encabeçada pela marca baiana Dendezeiro que, junto com a Vult, produziu capelos que respeitavam a estética dos cabelos volumosos para utilização nas cerimônias de formatura da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB). >
“Salvador é uma Roma negra, e a população negra normalmente não se vê representada nos espaços acadêmicos. O uso dos capelos no formato tradicional são a materialização dessa estética embranquecida do academicismo, que não considera a existência de estéticas próprias do povo negro, com seus cabelos volumosos, crespos, trançados”, aponta Marta. >
“É nesse contexto que a sanção dessa lei é fundamental, para que no momento do ápice da intelectualidade, na formatura, a essência dos formandos seja respeitada. É sobre representatividade e respeito à nossa ancestralidade, empoderamento e elevação da autoestima da nossa população negra nesse momento que é tão especial na vida de um estudante” completa a vereadora. >
Para a antropóloga Naira Gomes, presidente da Marcha do Empoderamento Crespo, ao mesmo tempo em que constitui um avanço, a lei mostra a lentidão do reconhecimento da variedade de cabelos e expressões identitárias do povo negro. Ela conta que espera que, a partir dessa medida, o povo soteropolitano possa escolher manifestar seus crespos em ocasiões extraordinárias. >
“Eu percebo, ao longo do tempo, que o empoderamento se dá em vários níveis. As pessoas, na vida ordinária, ou seja, no dia a dia, estão com cabelo crespo. Mas, no momento extraordinário, de um certo rito, pompa ou decoro, elas modificam os cabelos de forma a se adequar com o padrão. [Só que] o empoderamento significa duas coisas: a escolha do cabelo natural, a partir de experimentações, e também de mantê-lo assim nas situações extraordinárias, como a formatura”, reitera. >