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José Raimundo, Luana Assiz, Marrom: jornalistas baianos celebram legado de Wanda Chase em despedida

Jornalistas relembraram trajetória e importância da jornalista para o povo negro baiano em velório realizado nesta sexta-feira (4)

  • Foto do(a) author(a) Larissa Almeida
  • Larissa Almeida

Publicado em 4 de abril de 2025 às 19:57

Despedida de Wanda Chase teve homenagens do Olodum, Ilê Aiyê e Banda Didá Crédito: Marina Silva/CORREIO

Mais de 10 coroas de flores enfileiradas ocuparam quase metade do corredor do Cemitério Campo Santo que, na tarde desta sexta-feira (4), abrigou as homenagens finais a jornalista Wanda Chase, que morreu na madrugada da última quinta-feira (3), aos 74 anos. Todas as flores foram acompanhadas por mensagens saudosas e em tom elogiosos, muito do que também se ouviu entre os familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores que se reuniram para dizer o último adeus a Wanda.

Entre os comentários, repetiam-se aqueles que exataltavam o legado deixado por Wanda para o povo negro, sobretudo o baiano. "Wanda, como negra, em toda matéria que fazia tinha que ter uma pessoa negra. Ela entendia que podia impulsionar, dentro da profissão dela, os negros. Então, o legado que Wanda deixa é muito grande, assim como o legado que a Bahia dá a Wanda", destaca Telma Chase, irmã da jornalista.

O jornalista e colunista do CORREIO Osmar 'Marrom' Martins, que por muitos anos formou o 'casal vinte do axé' junto com Wanda, afirma que a amiga e colega de profissão agora deixará uma lacuna pessoal, bem como para o jornalismo baiano. "Vai fazer falta o contraponto, porque Wanda era uma pessoa séria, e eu era o lado brincalhão. Vai ficar marcado o profissionalismo dela e a correção do que ela fazia", frisa.

"Eu vou querer lembrar de Wanda sempre nos bons momentos. Ela tinha uma concorrência saudável comigo e, uma vez, Robertinho de Paris, que era amigo dela, me deu um furo jornalístico e ela passou uma semana sem falar com ele. Ela dizia 'olha, Robertinho, quem é sua irmã sou eu, que sou preta. Ele é Marrom'. Isso era Wanda Chase. Uma pessoa generosa, com amor pelos pretos da Bahia, pelos blocos afro, pelo axé e pela Bahia", enfatiza Marrom.

Osmar 'Marrom' Martins Crédito: Marina Silva/CORREIO

Nascida em Manaus, Wanda se mudou para a Bahia em 1991. Antes disso, já era atuante do movimento negro, pelo qual participava de eventos em diversas regiões do país. Foi a caminho de um desses encontros promovidos pelo ativismo que ela conheceu o jornalista José Raimundo, durante uma escala de voo em Campina Grande, na Paraíba.

"Ela era super carinhosa e trabalhava na TV Paraíba, afiliada da TV Globo. Ficamos amigos ali e depois tivemos encontros na redação, na televisão, no hotel. Depois, nos encontramos aqui em Salvador e com ela eu convivi muito tempo na redação. Ela abriu portas para muita gente, não só no jornalismo, mas no mundo artístico. Ela reconhecidamente tinha um valor extraordinário e vai deixar uma lacuna muito autêntica de tudo que representava para os baianos. Uma manauara que adotou a Bahia", aponta José Raimundo.

José Raimundo Crédito: Marina Silva/CORREIO

No processo de adoção da Bahia como casa, Wanda entrou em muitas casas pela TV. Uma delas foi a da jornalista Luana Assiz que, hoje, como apresentadora da TV Bahia, reconhece a importância dos caminhos traçados por Wanda para que ela, como mulher negra, pudesse ocupar esse espaço.

"Ela sempre foi uma inspiração e referência. Eu a assisti a vida inteira e chegamos a ser colegas de trabalho. Há três anos, eu a entrevistei no 'Conversa Preta' e ouvi diretamente a história de onde ela passou e a trajetória. [...] Isso reforçava em mim todo o legado que ela trouxe e que bom que ela conseguiu deixar o interesse, o apreço pela informação e o cuidado com a notícia. Isso é um legado eterno que ela deixa", diz.

Luana Assiz Crédito: Marina Silva/CORREIO

Para Ernesto Marques, presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI), o que Wanda deixa é o espaço para um jornalismo mais preto – diferente daquele que eles conheceram, há mais de 30 anos.

"Naquela época, Wanda era uma exceção que confirmava a regra do racismo e, apesar do que é estrutural não ter mudado, a cara dos telejornalistas baianos mudou. Hoje, ninguém mais é exceção. Wanda encarna muito isso, porque a qualidade dela enquanto jornalista e ativista contribuiu muito para isso", pontua.

Sempre combatente e séria ao tratar de temas ligados ao racismo, Wanda Chase não abria mão da alegria e espontaneidade ao celebrar a cultura negra através da arte. O jornalista Casemiro lembra que, em diversas coberturas de Carnaval, pôde ver de perto a paixão da amiga pelo axé e pelos blocos afros da Bahia.

"Trabalhamos juntos por quase 20 anos, principalmente em carnavais. Ela ficava transmitindo, comentando e me ensinando a história da cultura negra, dos blocos afros e dos afoxés. Depois dessa relação profissional, cada um seguiu seu caminho, mas a amizade continuou a mesma. No Carnaval, conversamos muito sobre os 40 anos da axé music. Ela era mais baiana do que muitos baianos que conheço. Se vai deixando esse legado e essa lacuna imensa no coração do jornalismo, da sociedade e dos amigos", finalizou Casemiro.

Casemiro Neto Crédito: Marina Silva/CORREIO

A despedida de Wanda Chase contou com nomes ilustres, como Carlinhos Brown, Márcia Short, Vovô do Ilê, Lazinho, Tonho Matéria, Banda Didá e integrantes do Ilê Aiyê e o Olodum. Entre os colegas de profissão, estavam também a editora-chefe do CORREIO Linda Bezerra, os jornalistas Fernando Sodake, Sica Freire, Georgina Maynart, Andréia Silva, Thiago Mastroianni, Tarsilla Alvarindo, Adriana Oliveira, Kátia Guzzo e Felipe Oliveira. Também compareceram à despedida final o escritor e agitador cultural Clarindo Silva que, ao lado de Brown, levou o caixão de Wanda até o crematório.