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Larissa Almeida
Publicado em 4 de abril de 2025 às 19:57
Mais de 10 coroas de flores enfileiradas ocuparam quase metade do corredor do Cemitério Campo Santo que, na tarde desta sexta-feira (4), abrigou as homenagens finais a jornalista Wanda Chase, que morreu na madrugada da última quinta-feira (3), aos 74 anos. Todas as flores foram acompanhadas por mensagens saudosas e em tom elogiosos, muito do que também se ouviu entre os familiares, amigos, colegas de profissão e admiradores que se reuniram para dizer o último adeus a Wanda. >
Entre os comentários, repetiam-se aqueles que exataltavam o legado deixado por Wanda para o povo negro, sobretudo o baiano. "Wanda, como negra, em toda matéria que fazia tinha que ter uma pessoa negra. Ela entendia que podia impulsionar, dentro da profissão dela, os negros. Então, o legado que Wanda deixa é muito grande, assim como o legado que a Bahia dá a Wanda", destaca Telma Chase, irmã da jornalista.>
O jornalista e colunista do CORREIO Osmar 'Marrom' Martins, que por muitos anos formou o 'casal vinte do axé' junto com Wanda, afirma que a amiga e colega de profissão agora deixará uma lacuna pessoal, bem como para o jornalismo baiano. "Vai fazer falta o contraponto, porque Wanda era uma pessoa séria, e eu era o lado brincalhão. Vai ficar marcado o profissionalismo dela e a correção do que ela fazia", frisa.>
"Eu vou querer lembrar de Wanda sempre nos bons momentos. Ela tinha uma concorrência saudável comigo e, uma vez, Robertinho de Paris, que era amigo dela, me deu um furo jornalístico e ela passou uma semana sem falar com ele. Ela dizia 'olha, Robertinho, quem é sua irmã sou eu, que sou preta. Ele é Marrom'. Isso era Wanda Chase. Uma pessoa generosa, com amor pelos pretos da Bahia, pelos blocos afro, pelo axé e pela Bahia", enfatiza Marrom.>
Nascida em Manaus, Wanda se mudou para a Bahia em 1991. Antes disso, já era atuante do movimento negro, pelo qual participava de eventos em diversas regiões do país. Foi a caminho de um desses encontros promovidos pelo ativismo que ela conheceu o jornalista José Raimundo, durante uma escala de voo em Campina Grande, na Paraíba.>
"Ela era super carinhosa e trabalhava na TV Paraíba, afiliada da TV Globo. Ficamos amigos ali e depois tivemos encontros na redação, na televisão, no hotel. Depois, nos encontramos aqui em Salvador e com ela eu convivi muito tempo na redação. Ela abriu portas para muita gente, não só no jornalismo, mas no mundo artístico. Ela reconhecidamente tinha um valor extraordinário e vai deixar uma lacuna muito autêntica de tudo que representava para os baianos. Uma manauara que adotou a Bahia", aponta José Raimundo.>
No processo de adoção da Bahia como casa, Wanda entrou em muitas casas pela TV. Uma delas foi a da jornalista Luana Assiz que, hoje, como apresentadora da TV Bahia, reconhece a importância dos caminhos traçados por Wanda para que ela, como mulher negra, pudesse ocupar esse espaço. >
"Ela sempre foi uma inspiração e referência. Eu a assisti a vida inteira e chegamos a ser colegas de trabalho. Há três anos, eu a entrevistei no 'Conversa Preta' e ouvi diretamente a história de onde ela passou e a trajetória. [...] Isso reforçava em mim todo o legado que ela trouxe e que bom que ela conseguiu deixar o interesse, o apreço pela informação e o cuidado com a notícia. Isso é um legado eterno que ela deixa", diz.>
Para Ernesto Marques, presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI), o que Wanda deixa é o espaço para um jornalismo mais preto – diferente daquele que eles conheceram, há mais de 30 anos. >
"Naquela época, Wanda era uma exceção que confirmava a regra do racismo e, apesar do que é estrutural não ter mudado, a cara dos telejornalistas baianos mudou. Hoje, ninguém mais é exceção. Wanda encarna muito isso, porque a qualidade dela enquanto jornalista e ativista contribuiu muito para isso", pontua.>
Sempre combatente e séria ao tratar de temas ligados ao racismo, Wanda Chase não abria mão da alegria e espontaneidade ao celebrar a cultura negra através da arte. O jornalista Casemiro lembra que, em diversas coberturas de Carnaval, pôde ver de perto a paixão da amiga pelo axé e pelos blocos afros da Bahia.>
"Trabalhamos juntos por quase 20 anos, principalmente em carnavais. Ela ficava transmitindo, comentando e me ensinando a história da cultura negra, dos blocos afros e dos afoxés. Depois dessa relação profissional, cada um seguiu seu caminho, mas a amizade continuou a mesma. No Carnaval, conversamos muito sobre os 40 anos da axé music. Ela era mais baiana do que muitos baianos que conheço. Se vai deixando esse legado e essa lacuna imensa no coração do jornalismo, da sociedade e dos amigos", finalizou Casemiro.>
A despedida de Wanda Chase contou com nomes ilustres, como Carlinhos Brown, Márcia Short, Vovô do Ilê, Lazinho, Tonho Matéria, Banda Didá e integrantes do Ilê Aiyê e o Olodum. Entre os colegas de profissão, estavam também a editora-chefe do CORREIO Linda Bezerra, os jornalistas Fernando Sodake, Sica Freire, Georgina Maynart, Andréia Silva, Thiago Mastroianni, Tarsilla Alvarindo, Adriana Oliveira, Kátia Guzzo e Felipe Oliveira. Também compareceram à despedida final o escritor e agitador cultural Clarindo Silva que, ao lado de Brown, levou o caixão de Wanda até o crematório. >