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Larissa Almeida
Publicado em 2 de abril de 2025 às 06:00
A formatura é um dos momentos mais esperados por estudantes de instituições de ensino que passam anos estudando para se capacitar profissionalmente ou por aqueles que concluem o Ensino Médio. Para coroar esse momento, é comum o uso de beca e capelo – o famoso chapéu que acompanha o formando durante a solenidade. No entanto, o objeto que é símbolo da intelectualidade, é o terror de muitos formandos que possuem cabelo crespo ou volumoso, como no caso da relações públicas Ivana Souza, 27 anos, que passou por minutos de pura frustração no dia da formatura. >
Ela conta que, durante uma sessão de fotos na faculdade, foi obrigada a usar o capelo tradicional porque não havia nenhum personalizado para caber no próprio cabelo. “Quem tem cabelo crespo sabe como é ruim quando ele é amassado e cada vez que eu precisava tirar e colocar o capelo, era um verdadeiro incômodo. Completo terror. Inclusive, quando ele fazia menção de cair, às vezes eles iam ajeitar e enterrava na minha cabeça”, relata. >
O uso do objeto trouxe a Ivana o sentimento de inadequação, o que frustrou os ânimos com o tão sonhado dia. “O grande dia da formatura [...] simboliza a concretização de um sonho tanto pessoal quanto familiar. Eu sonhei com esse momento, meus pais sonharam com ele, minha família inteira esperou ansiosamente por isso. Pensamos na roupa, na maquiagem, no cabelo e nem sempre consideramos que podem surgir desafios”, diz. >
“Meu cabelo é black, volumoso e a única certeza que eu tinha era que queria me ver nas fotos com ele assim solto, cheio, do jeito que representa minha identidade e todo o processo de construção da minha autoimagem como mulher negra ao longo da minha vida e nesse dia também durante toda a graduação”, completa Ivana. >
Para evitar que novos casos como o da relações públicas se repitam, a Prefeitura de Salvador proibiu, por meio de lei, o uso obrigatório de capelos para pessoas com cabelos crespos ou volumosos. Ainda, determinou que, nas solenidades de formatura de instituições de ensino no município de Salvador em que se faça o uso do objeto, deve ser garantida a oferta de modelos para todos os tipos de cabelo. O anúncio foi publicado no Diário Oficial do Município, no último domingo (30). >
A oferta, a distribuição e o aluguel dos capelos para cabelos crespos e volumosos deverão ser asseguradas pelas entidades organizadoras da solenidade. Entre os modelos que devem ser considerados, estão o capelo durag, o capelo turbante, o capelo tiara e o capelo pente garfo. >
A nova lei agradou Ivana Souza. “Acredito que essa mudança seja um grande avanço. Precisamos nos sentir confortáveis nesses espaços e isso inclui o nosso cabelo, porque para nós, ele é parte da nossa história”, enfatizou. >
A vereadora Marta Rodrigues (PT), que é autora do projeto de lei que foi sancionado pela prefeitura, comemorou a conquista. “Salvador é uma Roma negra, e a população negra normalmente não se vê representada nos espaços acadêmicos. O uso dos capelos no formato tradicional são a materialização dessa estética embranquecida do academicismo, que não considera a existência de estéticas próprias do povo negro, com seus cabelos volumosos, crespos, trançados”, aponta Marta. >
“É nesse contexto que a sanção dessa lei é fundamental, para que no momento do ápice da intelectualidade, na formatura, a essência dos formandos seja respeitada. É sobre representatividade e respeito à nossa ancestralidade, empoderamento e elevação da autoestima da nossa população negra nesse momento que é tão especial na vida de um estudante” finaliza a vereadora. >