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Luiza Gonçalves
Publicado em 7 de maio de 2024 às 08:28
No dia 18 de dezembro de 2018, o maestro Letieres Leite (1959-2021) e a Orkestra Rumpilezz fizeram um show com a participação de Caetano Veloso, na Praça Castro Alves. Na frente do palco, o naipe de percussionistas dá o tom, enquanto são acompanhados por 14 músicos de sopro. Oração ao Tempo, Milagres do Povo e Quando Ilê Passar cativam o público, que dança junto com o maestro. As imagens, disponíveis no canal do YouTube da Rumpilezz, foram capturadas pela jornalista e produtora audiovisual Vanessa Aragão. >
“Nunca vou esquecer desse dia, das sensações, do pertencimento que senti. Os atabaques, os All Stars dos músicos de sopro, essa mistura das tradições dos terreiros com a cultura pop. Foi uma paixão, admiração e amor verdadeiro ao primeiro show. Já conhecia antes, mas assim de pertinho não. É assim, descrevendo essa cena em detalhes, que inicio o livro sobre eles”, relembra.>
A partir daí, os laços entre Vanessa e a Rumpilezz foram estreitados. Filmando, fotografando e gerenciando as mídias digitais da Orkestra, o trabalho com o grupo tornou-se sua pesquisa de mestrado na UFRB. “Um misto de curiosidade por analisar o grupo ao mesmo passo que este me inspirava o melhor da música que vejo no mundo: a fusão entre o jazz com a musicalidade afro-brasileira, proveniente dos terreiros de candomblé. Investiguei o que os símbolos e ações da Rumpilezz queriam dizer através de sua performance e o que eles causavam em nós”, explica.>
As vivências e análises da pesquisadora compõem o livro Rumpilezz: A Performance e Sensibilidade de Letieres Leite e sua Orkestra (ed. Letramento | R$ 59). A obra será lançada hoje (7), como uma live no Instagram da autora (@vanessaragao), que contará com a participação do percussionista Gabi Guedes e da produtora cultural Edmilia Barros. O livro traz um breve histórico sobre a música instrumental de Salvador e da Rumpilezz, fotografias da autora, análise de elementos performáticos e uma entrevista com Gabi.>
Durante o processo de pesquisa, a autora revela que seu maior desafio foi equilibrar as vivências e as análises acadêmicas. “Foi um deleite puro”, afirma Vanessa, que articula os conceitos de performance de Diana Taylor e sensibilidade afro-brasileira de Muniz Sodré para pensar a atuação da Orkestra. “A partir disso, construí esse caminho da performance e dividi em tópicos que estruturavam a Orkestra para mim: nomenclatura, elementos vindos dos terreiros; protagonismo negro; o maestro que dança para desenvolver a análise do grupo”, diz.>
“Acredito que a Orkestra Rumpilezz é um farol de novos tempos musicais. Assim como Letieres foi e continua sendo um farol de genialidade e sabedorias”, pontua a jornalista. Para ela, o trabalho de Letieres Leite é fundamental por aliar as bases da música baiana, o protagonismo negro à sofisticadas composições. “Sei que seu legado está vivíssimo e cheio de ebulição para ser degustado, compreendido e difundido cada vez mais e mais”, garante.>