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Heloísa Périssé: ‘Fé é a certeza daquilo que você não vê’

Atriz fala com o CORREIO sobre a recuperação de um câncer raro e os tempos que viveu em Salvador: ‘praia, barzinho, roska’

  • Foto do(a) author(a) Roberto  Midlej
  • Roberto Midlej

Publicado em 5 de abril de 2025 às 11:00

Heloisa Périssé
Heloisa Périssé Crédito: Sora Maia/CORREIO

Nascida no Rio de Janeiro, Heloisa Périssé, 58 anos, tem um pé na Bahia: morou em Salvador na adolescência e diz que a capital baiana é a cidade de seu coração. Assim ela resume como era seu cotidiano soteropolitano: “Praia, praia, praia. Carnaval, praia, barzinho, roska...”. Saiu daqui para o Rio de Janeiro, onde se consagrou como uma das melhores atrizes cômicas de sua geração. Seu começo na TV não poderia ter sido melhor: com Chico Anysio, na Escolinha do Professor Raimundo, onde interpretava a adolescente Tati, que ganhou até um filme.

Vivendo num mundo “movido a brincadeira”, como ela mesma diz, de repente Lolô - como é chamada pelos amigos - deparou-se com um diagnóstico bastante sério, em 2019: ela descobriu ter um câncer raro, nas glândulas salivares. Enfrentou um longo tratamento e finalmente superou a doença.

Para celebrar o fim do processo, lançou o livro Cheia de Graça - Uma Jornada de Humor, Amor e Cura (Editora Best Seller/R$ 60/ 192 págs.) e esteve em Salvador para uma breve palestra e uma sessão de autógrafos. O lançamento aconteceu numa rede de clínicas que patrocina a publicação e foi lá que a atriz recebeu o CORREIO para falar sobre a batalha contra o câncer e a fé, que teve papel fundamental naquele processo e também muito presente no livro. Na conversa, leve e descontraída, Heloisa lembrou também dos anos agitados que viveu em Salvador e de quando estudou no ISBA e Anchieta, onde, assume, esteve longe de ser uma aluna exemplar.

Qual foi sua reação e o que você fez imediatamente após receber o diagnóstico?

A minha reação foi bem tranquila porque não entendi direito o que era. Então, minha preocupação foi resolver e foi exatamente o que eu fiz. Eu procurei saber o que teria que fazer, comecei a tomar as providências, me operei e foi assim, objetivo como estou contando aqui. Não foi uma coisa que eu fiquei desesperada, que eu fiquei nervosa. Realmente, não fiquei e hoje vejo que não fiquei porque talvez eu não tenha compreendido o que era. Neste momento, tenho que dizer: ‘santa ignorância!’.

Qual a importância da fé no seu processo de cura e a sua relação com a fé mudou depois de saber que tinha câncer?

Minha relação com a fé continua a mesma. Se eu tivesse que dizer algo, usaria uma frase de Jó, do Livro de Jó: “Antes, eu ouvia falar de você; hoje, eu te conheço”. Então, acho que vivi minha fé, foi um momento em que vivi minha fé e não apenas falar dela ou saber que a fé existe. Mas pude viver tudo aquilo em que eu acreditava. E pra mim foi um ponto de força fundamental, porque fé é a certeza das coisas que você não vê. É diferente da certeza, que você vê. E tive muita fé nesse momento de resolver aquilo que tinha que resolver.

Uma pessoa pode ter fé e não ser religiosa?

Pode. Eu sou religiosa, sempre fui. Mas Pelo lado do “religare” e não do dogma. [Alguns linguistas defendem que a palavra ‘religião’ tem origem no latim ‘religare’, que significa ‘religar’, ‘atar os laços’]. É importante dizer isso porque, se não, as pessoas ficam pensando que o fato de você seguir normas e regras é o que vai fazer sua ligação com Deus. Mas a ligação com Deus é algo muito maior, muito além da forma. A relação com Deus tá muito mais ligada ao conteúdo daquilo que você exerce. Fé não é sentar num banco duma igreja no domingo. A fé começa e termina a todo instante: no bom dia que você dá, na caridade, na mão que você estica. Isso pra mim é você levar a fé pra sua vida: trazer a igreja para você. Sou muito religiosa, mas por esse ponto de vita. Mas se você me perguntar se tenho religião, respondo que não. Se tiver que me autodefinir, sou cristã.

Há, no imaginário das pessoas, a impressão de que comediantes estão sempre bem-humorados e fazendo piadas. Como você é?

Trabalho com humor, mas sou uma pessoa. Então, tenho altos e baixos. É curioso isso que você fale isso, porque as pessoas esperam que você esteja sempre fazendo uma graça. Hoje, estava tomando o café da manhã e conversando com uma moça, dizendo que gosto de café e que como isso ou aquilo de manhã. E ela falou, de repente: “você é séria, né?”. Achei curioso ela dizer isso, mas estou acostumada. As pessoas acham que vou tomar café como? Sambando, fazendo umas bolinhas, contando uma piada? (risos). E não é. A gente é normal, né?

E durante o seu tratamento, como esteve o seu humor?

Tinha dias melhores e tinha dias onde realmente não tava bem. Tinha outros dias onde me permitia não estar bem, mas a maioria do tempo sempre mantive minha frequência bem elevada, que é onde procuro estar sempre. A gente atrai aquilo que a gente vibra, isso eu realmente acredito.

Você é filha de militar e por isso, teve que se mudar várias vezes de cidade, inclusive para Salvador. Onde você viveu?

Nasci no Rio de Janeiro e logo fui para os Estados Unidos, onde morei até um ano de idade. Lá, fiquei até os quatro anos, aí fui para Mato Grosso, morei lá até os seis anos. Fui pra Brasília e fiquei até os dez. Voltei pro Rio e com 11 anos vim pra Salvador. Então, minha cidade do coração é Salvador, onde fui criada. Estudei no ISBA, no Anchieta, onde fiz amigos-irmãos. Meus pais se mudaram pra cá quando eu tinha 11 anos e nunca mais foram embora, até meu pai morrer. Minha mãe agora vendeu a casa daqui e voltou para o Rio. Eu fiquei aqui até os 20 anos e fui pro Rio porque queria ser atriz e lá era o lugar. Se quisesse ser médica ou engenheira… - que não teria como eu ser (risos) - seria aqui. Mas não é o caso.

No livro, há uma frase que você menciona, que diz ser repetida por sua família: “Molha no mar, que passa”. O que significa?

Essa frase é uma coisa que a bisavó da minha mãe já dizia e que minha mãe dizia também para a gente. Então, nunca tive uma família que incentivasse o sofrimento, que fosse dramática. Minha família é engraçada, leve… e era isso: “molha no mar, que passa”. Então, acho que tive essa sensação durante o processo [de tratamento]: vou molhar no mar e vai passar.

E o mar da Bahia?

O mar da Bahia é tudo, é vida. Não é o mar da Bahia na minha vida. O mar da Bahia é vida. Tanto que hoje tenho uma casa na Praia do Forte e minha relação com o mar é a mais linda possível.

Como foi sua vida em Salvador?

Praia, praia, praia… Carnaval, praia, barzinho, roska… era o que eu fazia. E academia. E praia de novo. E Guarajuba e passeio e alegria e paz. Então, morei durante sete anos aqui, saí daqui levando todo esse axé daqui, nesse número cabalístico maravilhoso e levei isso pro resto da minha vida porque o baiano é Carnaval, a Bahia é alegria e eu me identifico totalmente. Sou muito amiga de Emanuelle Araújo e Manu me via fazendo a Tati: ‘Cara, fala sério’ [o bordão da personagem, com forte sotaque carioca]. Manu dizia: essa menina tem um sotaque carioca, mas tem uma coisa baiana. Ela leu minha alma.

No livro, você diz que não foi uma adolescente “fácil”. Por que?

Ah, eu era ‘triste’, era tudo isso que falei: era praia, Carnaval, barzinho, roska, saía... Eu não era naturalmente uma pessoa acadêmica. Eu amava as escolas pelos amigos, pelos professores… mas a escola em si, eu não tinha coisas ali que me interessavam. Eu queria falar, cantar, subir na árvore, falar merda… imitava os professores. Passava de ano, porque na hora H, eu estudava e os professores ficavam loucos porque não conseguiam me reprovar. Mas eu não tinha a ver, eu gostava do social da escola. E eu acho que as escolas, o ensino no Brasil, no mundo, tem que dar uma modificada, porque se o aluno não nasce num perfil acadêmico, não encontra um lugar dentro de uma escola. Mas isso não significa que você vai ser um fracassado na sua vida. Tanto que isso [fracassar] foi longe da minha história, graças a Deus. Digo que se você vai julgar o peixe pela capacidade que ele tem de subir uma montanha, o peixe tá ferrado. Mas solta ele na água! Na hora, em que entrei no mar, fui com tudo, porque aí gerou interesse naquilo que me interessava. Eu não queria saber de física ou para onde o vetor está virado. Problema do vetor, ele que se resolva. Tabela periódica?!

E os próximos passos na carreira?

Vou fazer a próxima novela das seis, vai ser lançado um filme baseado na minha peça Loloucas, que estava fazendo quando eu descobri a situação que eu estava passando. Esse filme maravilhoso, com Ary Fontoura, Luis Miranda, Jonas Bloch, Dhu Moraes, Stella Miranda e Patricia Travassos. Meu ex-marido dirige e eu fui roteirista. Quero migrar para trás das telas, quero escrever mais. E novela toma muito seu tempo. Vou trabalhar 6x1, então o que sobrar de tempo, ajoelho, agradeço e durmo.