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Roberto Midlej
Publicado em 5 de abril de 2025 às 10:11
Se, por um lado, o Brasil é um país livre de tragédias naturais como furacões, tsunamis e terremotos, por outro, fomos vitimados por tragédias provocados por nós mesmos, seres humanos, por negligência ou irresponsabilidade. No rompimento da barragem de Brumadinho, em 2019, foram 270 mortos; em 2013, 242 jovens perderam a vida na boite Kiss, no Rio Grande do Sul; no rompimento da barragem de Mariana, em 2015, 19 vidas perdidas. No massacre de Carandiru, em 1992, “111 presos indefesos”, como cantaram Gil e Caetano, foram eliminados por policiais. >
Indo um pouco mais para trás, nos deparamos com a tragédia da embarcação Bateau Mouche IV, na virada de 1988 para 1989, quando 55 pessoas morreram naquela noite que era para ter sido um festejo, mas resultou num trauma às famílias e aos sobreviventes. No Réveillon, 142 pessoas embarcaram em um píer em direção à praia de Copacabana, para assistir à famosa queima de fogos carioca. Mas a embarcação, inicialmente projetada para 25 pessoas, virou quando faltavam cerca de 30 minutos para a virada.>
Agora, quase 37 anos depois da fatídica noite, a história chega em formato de série documental no streaming Max, em três episódios que misturam depoimentos reais com cenas de reconstituição que revelam a agonia que os passageiros viveram. Mas essas cenas, embora se apresentem como realistas, não acrescentam quase nada. Os depoimentos e imagens da época do acidente são mais que suficientes para dar um clima de terror e angústia ao espectador. E, mais que isso, de revolta e desesperança no Brasil.>
Há entrevistas com sobreviventes e familiares de sobreviventes, além de autoridades e advogados que cuidaram do caso. Tudo isso, para, no fim, bater aquela sensação de impunidade e injustiça que ficou em todas aquelas tragédias citadas. Ah, e ainda tem outra, que não citei: a morte de dez adolescentes no dormitório do Flamengo em 2019, que rendeu outra ótima série documental, na Netflix: O Ninho - Futebol e Tragédia.>
É impossível não se angustiar com o desespero de Boris Lerner, um dos sobreviventes, que perdeu a esposa e o filho Dudu, de dois anos naquela noite. Não sabemos de onde ele tira força para relembrar e narrar como foi carregar o menino morto em seus braços e, mais que isso, providenciar um papel para anotar o nome do garotinho junto ao corpo. “Nesse momento, se a Irene souber que o Dudu faleceu, eu não sei qual vai ser a reação nem como ela vai conviver com isso. Um músico que tocava como contratado chora ao lembrar-se do menino: “Toda vez que tenho que descrever essa situação, essa emoção vem, não tem jeito. Aquela criança, desde o início, ficava brincando comigo, tocando o tantã… aí, vi o pai dele desesperado, dizendo ‘meu filho’... para mim, esses momentos foram muito difíceis”. Milagrosamente, uma menina de dois anos, filha de um casal amigo de Boris, sobreviveu. Mas os pais dela, não. >
Não bastasse a tragédia em si, o que vem no último episódio só piora as coisas: a impunidade e o mau funcionamento da Justiça. Descobriu-se depois que os maiores donos do negócio que explorava aquele passeio do Bateau Mouche não foram incluídos no processo. >
Os condenados eram sócios minoritários, antigos garçons de um dos restaurantes que os donos do barco tinham e pagaram a conta sozinhos. Aliás, mal pagaram a conta: estavam cumprindo pena em regime aberto e aproveitaram para fugir. Mais tarde, os verdadeiros donos do negócio - que tinham um conglomerado de empresa no Rio - foram encontrados pelo jornal O Globo na Espanha. Mas nunca pagaram pelo crime.>
Na Justiça, não faltaram evidências de culpa ou irresponsabilidade cometidas por diversas partes. Um engenheiro civil (e não um engenheiro naval, como deveria ser) assinou laudos autorizando a inclusão de um deck extra, com piso de cimento, além da instalação de uma caixa d’água, o que contribuiu para o desequilíbrio da embarcação.>
A Capitania dos Portos, órgão ligado à Marinha, ordenou, antes do acidente, que o Bateau Mouche retornasse ao píer, o que foi cumprido, pelas más condições da embarcação. Sabe-se lá por que, os funcionários da entidade mudaram de ideia e resolveram liberar a partida do barco. Há sobreviventes que garantem ter visto uma cena suspeita: responsáveis pelo navio entregaram envelopes aos funcionários da Marinha pouco antes de eles mudarem de ideia e autorizarem a saída do Bateau Mouche. O que tinha naquele envelope? Não há provas, mas pensar que havia uma propina - como a Justiça cogitou - não parece nada ilegítimo. >
Pode soar como viralatismo, mas não há como tirar razão de um dos produtores da série: o caso Bateau Mouche é um “suco de Brasil”.>
Disponível no Max>