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Luiza Gonçalves
Publicado em 26 de março de 2025 às 09:02
O laço entre os atores Samuel de Assis, Felipe Velozo e Amaury Lorenzo começou a partir das idas e vindas pelo teatro nos anos 2000, quando migraram para São Paulo e Rio de Janeiro para investir em suas carreiras. No início, se conheciam de vista, eram amigos de amigos. Mas a relação cresceu, se transformou em admiração, identificação nos momentos de destaque, nas vivências enquanto homens negros e numa amizade que está prestes a invadir os palcos. >
Em exclusiva ao CORREIO, esse trio talentoso e bem-humorado anuncia o espetáculo Por que Não Nós?, novo projeto comum de Assis, Velozo e Lorenzo. A peça, com texto de Júlia Spadaccini e direção de Débora Lamm, tem estreia nacional marcada para o dia 17 de maio, no Teatro Jorge Amado, em Salvador. O espetáculo pretende passar por nove cidades no Brasil, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro - os atores esperam confirmação de patrocínio para divulgar agenda.>
Embora seja originalmente de Aracaju, Samuel diz que escolheu Salvador pela conexão com a cidade, o axé e por se onde se realizar como ator. Felipe Velozo é soteropolitano, então, a escolha natural de começar pela Bahia já está sempre feita. Já Amaury, apesar de ser mineiro, garante que se enxerga muito nos baianos. >
“A gente se encontra agora em momentos muito parecidos, morando no mesmo prédio, o que não foi por acaso. E aí eu falei: ‘bom, vamos fazer uma coisa nós três’”, explica Samuel. O trio começou a partilhar momentos online, como viagens e situações do cotidiano no Instagram, e ficou animado com a resposta positiva dos seguidores. >
Mas o empurrão definitivo veio de um local oposto ao da diversão. “Depois que Samuel convidou a gente, o Felipe viveu algumas questões pessoais e ficou lá, quietinho. Samuel também com questões e eu idem. Estávamos três homens com problemas e que não queriam conversar uns com os outros, morando no mesmo prédio, sendo vizinhos e amigos”, relembra Amaury. “Quando o bicho pegou emocionalmente para os três, a gente se enclausurou, porque tem essa ideia de que o homem tem que engolir suas dores e seguir. E isso fez a gente refletir e fazer o movimento oposto”, complementa Felipe.>
Em Por que Não Nós?, a intimidade ganha a cena, mesclando relatos autobiográficos, ficção, metateatro e comédia para discutir temáticas como amor, identidade e educação emocional. “Nosso espetáculo é uma homenagem ao teatro, uma celebração daquilo que vivemos. E queríamos falar de questões nossas, como a masculinidade tóxica, o afeto, tudo de depauperado que temos enquanto três homens pretos que moram no Rio e que lutam pela sua arte”, define Amaury.>
Os amigos revelam que as temáticas e o nível de entrega pessoal são inéditos para eles, o que serve como combustível a mais para desnudarem-se diante da plateia e provocarem discussões que impactem o coletivo. “Acho que uma das maiores carências das pessoas pretas é o exemplo. Nós não fomos criados a partir de exemplos, porque tivemos poucos ou não tivemos exemplos. Então, eu acho que o Porque Não Nós vem também por conta disso, por que não contar nossas histórias, para que seja mais fácil para os próximos?”, resume Samuel.>
Educação emocional>
No enredo da peça, três atores ensaiam para o espetáculo em que interpretam as amigas Ângela, Celeste e Catarina, que se apoiam durante um término de relacionamento, mesclando momentos entre o feminino e o masculino. “A gente usou esse artifício justamente para falar sobre a falta de educação emocional que nós, homens, temos”, explica Samuel. Uma escolha que, de pronto, foi questionada por Júlia Spadaccini quando ouviu o desejo dos atores: “Os homens de hoje são tão carentes dessa informação e desse lugar de fala de emocional, que, quando vocês querem discutir sobre esse tema, vocês querem fazer três mulheres”, teria dito a autora.>
Juntos, atores e autora, decidiram que seguir com a ideia era mais uma forma de romper essa barreira. “À medida que a gente vai fazendo essas mulheres, ganhamos fôlego e força para falar de nós, homens. Então, passa longe do estereótipo, é uma homenagem às mulheres no sentido de a gente aprender todos os dias para falar dessa masculinidade. Assim, a gente vai entendendo o caminho de vocês, mulheres”, pontua Amaury. “Na verdade, a gente não sabe o que a gente tá fazendo”, brinca Felipe.>
O bom humor será a chave principal para trazer as temáticas trabalhadas no texto, utilizando-o também como uma forma de serem mais abertos às suas emoções. “Vamos falar de coisas muito sérias sorrindo e de coisas cotidianas de forma a tirar um suspiro ou uma emoção. A ideia é colocar o amor no começo da conversa, com a convicção de que as nossas histórias podem destravar cadeados, alcançar pessoas mais velhas e mais novas. O teatro é esse lugar da identificação, da troca. Vamos conversar. Vamos falar da gente”, convida Felipe.>
Sinopse: “Por que não nós?” é um espetáculo que retrata uma amizade tripla entre mulheres que camufla a amizade de três homens. Três atores/personagens que vivem essas amigas/personagens e o jogo que a atuação no palco e na vida provocam. A história acompanha o fim do relacionamento de Ângela e a saga de Celeste e Catarina para tirarem a amiga do “fundo do poço”. Somos levados, com humor, a reparar nos contornos de cada personagem na ânsia de saciar seus desejos e lutar pela felicidade e pela alegria se jogando no mundo em uma viagem de navio.>
Os padrões estabelecidos, do lugar da mulher, angustiam as três e atiçam os três atores em cena. Um desequilíbrio se instala e os seis precisam lidar com o ritmo de suas certezas se desfazendo. É um mergulho profundo e ácido na psiquismo do que é ser homem na nossa sociedade, partindo da narrativa de três divorciadas sarcásticas e penetrantes. São todos, elas e eles, frutos e motores da opressão que vivem.>
Serviço: Estreia 'Por que não nós?' com Amaury Lorenzo, Felipe Veloso e Samuel de Assim I Dias 17 de maio, às 21h e 18 de maio, às 20h, no teatro Jorge Amado, Salvador I Ingressos no Sympla >