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Wendel de Novais
Publicado em 5 de abril de 2023 às 05:30
- Atualizado há 2 anos
Os aposentados e pensionistas que pegaram empréstimo consignado ao longo de 2022 precisaram arcar com uma taxa de 2,14% ao mês para quitar as parcelas. Em 2023, mais precisamente no último mês, o cenário mudou. Primeiro, o Conselho Nacional de Previdência Social decidiu pôr um teto na taxa, permitindo que bancos e financeiras cobrem até 1,70% de taxa. Com a ameaça de restrição de crédito por parte das instituições financeiras, o Conselho definiu que a queda dos juros não seria tão grande, fixando-a em 1,97%. A redução, porém, já é suficiente para fazer com que muitos baianos corram aos agentes financeiros atrás de novos consignados, como pretende o aposentado Alberto Moreira, 64 anos. A prática, porém, traz riscos de super endividamento (leia abaixo).>
"A notícia é ótima! Já estava pensando em pegar o consignado inclusive para quitar um outro empréstimo pessoal em que os juros estão me matando. Agora é que vou fazer mesmo porque já antecipo o pagamento, reduzo valor e vou lidar com um valor menor para pagar", afirma ele, que estava esperando apenas a confirmação de que haveria uma redução na taxa.>
Para efeito de comparação, a reportagem fez a média dos juros por mês de empréstimo pessoal nos cinco bancos mais populares do país - CAIXA, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander - em março de 2023. A taxa média é de 7,7%. >
Advogado especialista em Direito Previdenciário, Isaac Carvalho explica que o consignado é um crédito descontado diretamente na fonte ou no benefício de quem o pega. Por isso, as financeiras e bancos têm mais segurança, sabendo que vão receber os valores. "Porém, instituições disseram que era inviável abrir crédito com 1,70%. Algumas fizeram até um cancelamento da abertura de novos consignados. Com 1,97%, algumas já concordaram em abrir essas linhas de crédito para a categoria", detalha Isaac.>
A concordância das instituições é vista como um benefício por Alberto, que está enrolado nos empréstimos. "Estava pegando um para quitar o outro. No fim, os juros acumulados sempre me derrubavam e eu acabava me complicando. Agora, estou me organizando e querendo sair dessa vida de dívidas. O consignado vai me ajudar a me recuperar sem tanto problema". >
Impacto econômico Em caso de uso disciplinado da opção, o consignado com juros mais baixos ajuda beneficiários do INSS que estão presos a dívidas ou tiveram despesas extras. Para a economia, porém, especialistas afirmam que a curto prazo é positivo, mas em um futuro mais distante pode haver consequências. >
Edísio Freire é economista e mostra preocupação. Segundo ele, crescimento econômico pautado em crédito de forma exclusiva pode ser um problema. "A médio ou longo prazo, pode-se criar uma bolha financeira. As pessoas que hoje tomam crédito, se em algum momento não conseguirem pagar, ficam inadimplentes, deixam de ter acesso ao crédito e de consumir porque estão pagando dívida. Então, a oferta de crédito sem um planejamento financeiro que a ancore é perigosa", explica.>
Ainda assim, Freire destaca que ações de crédito, quando acompanhadas de um plano de crescimento econômico com outras ações que a apoiem, são importantes para os cidadãos, para a máquina pública e até para os próprios bancos pelo volume de beneficiários estimulados pela decisão.>
"Reduzir o teto da taxa do consignado é importante e justo. Poderia, na minha opinião, ser inclusive menor, porque o consignado é um crédito que a instituição que oferece tem a garantia de que vai receber esse dinheiro", conta ele, que entende o impacto como pequeno para os bancos que, apesar de menos juros, tem maior procura por crédito.>
Guilherme Dietze, economista da Fecomércio-BA, concorda que a taxa juros em 2,14% ao mês, como estava antes, e até a nova de 1,97%, são altas, mas analisa que não cabe ao governo ações unilaterais. Para ele, mesmo que a taxa de juros esteja elevada e que o consignado seja um empréstimo de baixo risco, não se pode pôr um teto sem negociar com bancos. >
"Você pode ter uma medida com um intuito positivo, de estímulo ao crédito mais barato. Porém, se faz isso à força, sem negociação, pode gerar o efeito contrário. Os bancos podem olhar e decidir que a esse custo não fazem. Então, você teria uma redução de oferta de crédito", analisa.>
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) reforçou essa possibilidade, discordando da redução na taxa de juros. Para a federação, é preciso haver compatibilidade entre taxa e os custos que os bancos arcam para fornecer o crédito. "Neste momento, considerando os altos custos de captação, a eventual redução do teto poderia comprometer ainda mais a oferta de empréstimo consignado e do cartão de crédito consignado", escreve em nota.>
Fácil agora, difícil depois A opção pelo crédito com juros menores pode se tornar um problema caso seja usada sem planejamento e de forma indiscriminada. Guilherme Dietze convoca os aposentados e pensionistas a analisarem com cuidado se há ou não a necessidade de optar pelo crédito. >
"Vale a pena contrair esse crédito? Tem que se perguntar se precisa desse dinheiro, se tem emergência de saúde, na família, na alimentação ou taxa de juros no cartão que é muito mais elevada. Se sim, pode ser o momento. Pegar só pelo crédito é ruim", afirma o economista.>
É que, quando se pega por apenas ter essa opção, o tomador do empréstimo acaba ficando com menos dinheiro do que deveria, já que arca com juros que são o custo do crédito. >
Isaac Carvalho corrobora com o economista e reforça o cuidado que é necessário nessa modalidade de crédito. "É uma linha interessante, de fácil aprovação e com juros menores. Porém, essas vantagens só vão ser efetivas de fato para quem faz a sua programação financeira direitinho. É um crédito que vai ser descontado, não tem como adiar", alerta.>
É importante salientar que a taxa de juros do INSS de 1.97% ao mês gera um acumulado anual de 27,4%. Essa é a taxa válida apenas para aposentados e pensionistas. Outras categorias como servidores públicos (24,5%) e trabalhadores do setor privado (39,6%) têm outro quantitativo de juros acumulados, segundo dados do sistema financeiro do Banco Central.>
Veja simulações para entender a diferença nos consignados de 2022 e 2023:>
Com 2,14% de juros>
R$ 1.000,00 12 X R$ 95,37 Taxa 2,14% am Total a pagar: R$ 1.144,49>
R$ 5.000,00 12 X R$ 476,87 Taxa 2,14% am Total a pagar: R$ 5.722,44>
R$ 10.000,00 12 X R$ 953,74 Taxa 2,14% am Total a pagar: R$ 11.144,88>
Com 1,97% de juros>
R$ 1.000,00 12 X R$ 94,38 Taxa 1,97% am Total a pagar: R$ 1.132,63>
R$ 5.000,00 12 X R$ 471,93 Taxa 1,97% am Total a pagar: R$ 5.663,16>
R$ 10.000,00 12 X R$ 943,85 Taxa 1,97% am Total a pagar: R$ 11.326,20>