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Da Redação
Publicado em 7 de abril de 2013 às 05:35
- Atualizado há 2 anos
“Em Nazaré, nós temos a Igreja do Santíssimo Sacramento e Sant’Ana e o Convento do Desterro. Na principal avenida do bairro, a Joana Angélica, temos as sedes da sinagoga e do centro cultural islâmico da Bahia. Nós vivemos um país diferente do mundo, onde todas as etnias, credos e filiações conseguem viver em paz. Da mesma forma, o Bahia e o Vitória”.A presidente Dilma Rousseff fez esta afirmação na sexta-feira, na inauguração da Fonte Nova, que fica justamente no bairro de Nazaré. Meu coração sorriu. Concordo com a presidente. E, no embalo da constatação, lanço a campanha: quero a torcida mista de volta.“A mudança do termo de estádio para Arena é cultural e contamos com vocês para tornar este sonho uma realidade. Nosso compromisso é inaugurar uma era em que o respeito ao público, artistas, atletas e profissionais é o maior ingrediente do espetáculo... Bem-vindos à casa de vocês”, comentou o presidente da Fonte Nova Participações, Frank Alcântara, também na sexta. Meus olhos brilharam. Também concordo com o presidente. E, motivado pelo apelo, reforço a campanha: quero a torcida mista de volta.A torcida mista é o maior bem imaterial das arquibancadas baianas. Na antiga Fonte Nova, tinha tamanho móvel. Em média, ia do fundo do gol da Ladeira da Fonte das Pedras até a bandeirinha de escanteio localizada perto do ginásio do Balbininho.A torcida mista aproximava os rivais. Aproximava quem usava o esporte para o bem, para se divertir, para provocar sem perder o respeito. Na torcida mista, o mundo do futebol era daquele jeito que a gente aprende na infância.Mataram a torcida mista há uns dez anos. A torcida mista pagou o preço pela violência das facções organizadas. As rixas entre os comandos, os distritos e os bondes criaram o clima de insegurança. Um medo que não nasceu do futebol, mas da falta de segurança pública.Nunca um torcedor morreu dentro de um estádio de futebol na Bahia por causa de briga. As badernas, a carnificina e a covardia acontecem nas ruas. O que a Bahia já viu foi homicídio. E crime é caso para a polícia e para a Justiça. A impunidade é o alimento dos criminosos. De seres humanos falidos de alma.Em 2006, morreu Hermílio Ribeiro Júnior. Em 2010, Márcio Chabi Brito. Entre os dois, Luiz Carlos Vítor Pereira e Pedro Sales Silva. Eu estive em todos os jogos. A vítima fatal poderia ter sido eu. Ou você. Ou um amigo. Por culpa de animais que chegam sob escolta policial, afinal não têm educação, não respeitam quem é diferente e são extremamente narcisistas. Pobres de espírito.Reconheço que não seria possível resgatar a torcida mista já neste clássico de reabertura da Fonte Nova. Nós, torcedores e profissionais que vivemos do futebol, estamos acomodados a uma idiota cultura da separação. Esquecemos que o esporte nasceu para aproximar as pessoas diferentes e as culturas diferentes.Na minha cabeça (e cada cabeça tem seu mundo), a torcida mista poderia voltar no Brasileiro, naquele canto, hoje setorizado nos três níveis de arquibancada, onde no passado ficou a geral. Depois, caso o sucesso se confirme, voltaria para o fundo de gol, também setorizado nos três níveis da Fonte Nova. E faria seu verdadeiro papel. Unir pais e filhos, casais, famílias e amigos que torcem em paz pelo futebol, que têm humor para rir de si mesmo, apesar das cores diferentes.Eu sempre vou buscar meu lugar no time dos esperançosos (ou teimosos). Eu acredito no torcedor baiano. Eu acredito que as pessoas boas são maioria. Eu acredito na mensagem de paz, amor e tolerância da torcida mista. Mais felicidade!>