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O mal, o Oscar e a Arte de Lembrar

A Arte, usando da poesia, da imaginação, pondo uma lente diferenciada sobre a realidade, escancara o real através da fantasia

  • Foto do(a) author(a) Gil Vicente Tavares
  • Gil Vicente Tavares

Publicado em 27 de março de 2025 às 20:43

Você já ouviu falar em Guernica?

Provavelmente, você automaticamente associou minha pergunta à pintura de Pablo Picasso.

O google, também. Demorei a achar algum link que falasse do massacre covarde a civis durante a Guerra Civil Espanhola.

Sabe quantas pessoas iriam, ao redor do mundo, se lembrar da pequena cidade basca, se não existisse a pintura de Picasso?

Quando foi que parte do mundo, que seja, parou para pesquisar sobre a perseguição política da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental?

O filme A vida dos outros, que conquistou prêmios e espectadores mundo afora, em 2006, despertou as pessoas para um assunto que jamais era tocado em rodas de conversa, notadamente fora do epicentro da questão.

Quanto tempo gastaríamos de nossas vidas buscando informações sobre as tramas políticas dos reis e rainhas da Inglaterra, para nos vermos de alguma forma naqueles jogos sórdidos? Por mais livros de história que fossem publicados, estes não entrariam seguidamente no imaginário das pessoas como as peças históricas de Shakespeare; lidas, ou, ainda mais, encenadas.

Por que será que, em regimes totalitários, artistas estão sempre entre os primeiros a serem perseguidos?

A resposta está nos parágrafos acima.

A Arte, usando da poesia, da imaginação, pondo uma lente diferenciada sobre a realidade, escancara o real através da fantasia, reinventa a história imortalizando-a através do belo, no sentido mais amplo que uma obra como Guernica, de Picasso, e uma peça como Ricardo III, de Shakespeare, podem ser belas.

A Arte talvez seja a forma mais sensível de recontar nossa história, marcando como uma cicatriz o tecido do tempo.

E os poderosos, os protagonistas da desgraça e seus masoquistas capachos detestam saber que a arte atravessa indomável fronteiras, censuras, pois através de um espaço de descanso da realidade, de um entretenimento e respiro para superar o dia-a-dia, os poderosos, os protagonistas da desgraça e seus masoquistas capachos são eviscerados. Às vezes, de maneira doce, suave, noutras de maneira transgressora, incômoda, mas, decerto, sem que nenhum deles escape desta superexposição das mazelas humanas.

Com a projeção - no duplo sentido - do filme Ainda estou aqui, o pessoal da extrema direita resolveu contra-atacar. Não bastasse o filme expor os crimes da ditadura militar, artistas do longa-metragem se mantiveram, em todas as entrevistas, reiterando as chagas do passado e do presente.

O “pior” aconteceu: foi o primeiro filme brasileiro a ganhar um Oscar. Justo um prêmio dos EUA, que a extrema direita idolatra tanto. As fake news rodaram pelos whatsapps do país a torto e a direito, e uma campanha coordenada foi feita tentando desmoralizar o filme. Desde asneiras das mais absurdas como a de que foi um prêmio comprado, como mentiras sobre Rubens Paiva, tentando incutir na cabeça de gente ignorante e desinformada que ele era um bandido.

Acabei por recentemente travar um diálogo digno de uma peça absurda, ou esquete de humor. Uma pessoa me disse que não veria o filme em hipótese alguma, pois se recusava a assistir a filme de bandido, de petista, esse povo de Lula, e que preferia ver pela milésima vez Scarface.

Ora, ora; uma pérola. Além de subverter a história, chamando de bandido uma vítima de um Estado criminoso, a pessoa dizia preferir ver um filme sobre um bandido, um traficante. E justo um filme onde, a despeito de uma pretensa crítica, o banditismo é de algum modo glamourizado e romantizado.

Assusta saber que mesmo com todas as evidências, provas, a pessoa resolve reescrever a história, corrompendo a realidade, de acordo com sua conveniência.

De repente, a ditadura que torturou, assassinou, censurou, violentou, exilou, se torna vítima, e as suas vítimas se tornam os criminosos. Não precisamos ir longe. O mesmo vale agora para o 8 de janeiro, em que imagens mostram a violência da depredação e vandalismo, e provas e mais provas de tentativas de atentados, planos de golpes e assassinatos, e num passe de mágica essa gente sórdida toda vira gente de bem, pais de família, senhoras religiosas.

Não adianta que existam reportagens, imagens, livros sobre; essa gente vai seguir deturpando a realidade e subvertendo a história.

A ditadura de Franco acabou. A imagem da Guernica de Picasso roda o mundo e é uma referência mundial, e quem tem a oportunidade de vê-la ao vivo, não tem como não se impactar; ainda mais sabendo da história toda por trás. A Guernica seguirá lembrando ao mundo a Guernica.

O muro de Berlim caiu. Ninguém fala mais da Stasi, suas perseguições, prisões. Mas o filme A vida dos outros ganhou até Oscar, e seguirá sendo visto por décadas, talvez séculos.

Shakespeare nunca saiu de moda, e assim como Guernica e A vida dos outros, suas peças seguirão expondo todo o mal que regimes autoritários, déspotas, e os diversos cúmplices da desgraça fizeram.

E ainda fazem.

Eu citei o pessoal da extrema direita, mas a tal dita esquerda esclarecida segue emulando o pior dos regimes totalitários com perseguições, dirigismos, fisiologismos, e os esquerdistas, sempre a postos para protestar contra o autoritarismos dos extremistas da direita, se calam e se acovardam frente ao mesmo mal que grassa em suas hostes, ainda hoje em dia. E que A vida dos outros retrata tão bem, relembrando os males do leste europeu durante a Guerra Fria.

Alguns “zumbis do zap” podem boicotar Ainda estou aqui, mas o filme seguirá sendo visto por milhares, quiçá milhões mundo afora. E nossa desgraça, que noutra coluna eu falei que era necessário ser oficializada, seguirá ao menos em evidência na Arte.

Vocês podem até estar confortáveis ao lado dos seus interesses. Mas saibam que serão o estrume que adubará as florestas de sonhos da arte futura. E lá, driblando a censura e dando rasteira na burrice e na ignorância, a Arte seguirá cumprindo um dos seus papéis fundamentais que é lembrar.

Mas não lembrar como um átimo de tempo que já passou e talvez seja melhor ser esquecido.

A Arte traz o tempo, com todo seu peso, através da poesia, com sua forma provocante, recriando a realidade e relembrando que, sempre que a humanidade der um passo atrás, em busca da violência, selvageria e injustiça, a Arte dará cem saltos, mil voos em todas as direções, semeando beleza mesmo onde as trevas nos turvam a visão; e denunciando o passado de maneira indelével.

E vocês, que se disfarçam entre as sombras dos totens do mal, serão lembrados também.