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O pesadelo masculino chamado “mulheres que sabem o que fiz em verões passados”

Neste momento, a menina que era abusada pelo amigo da família e tantas outras personagens esquecidas podem estar pensando em voltar para escrever - e protagonizar - imprevistos últimos capítulos

  • Foto do(a) author(a) Flavia Azevedo
  • Flavia Azevedo

Publicado em 5 de abril de 2025 às 08:00

Pesadelo
Pesadelo Crédito: Shutterstock

Nos últimos três dias, vivemos momentos especiais. Primeiro, vimos o jornalista Silvio Batalha ser acusado de estupro, durante a transmissão ao vivo de um programa de rádio de Salvador. Em seguida, de acordo com a emissora, mais duas mulheres fizeram a mesma acusação. Também soubemos que chegou a hora de o mundialmente famoso ator francês Gérard Depardieu ser julgado por acusação de violência sexual. Por fim, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) solicitou que a Polícia Civil abra inquérito para investigar a denúncia de estupro protocolada pela atriz Juliana Oliveira, contra o apresentador Otávio Mesquita. Grandes dias, né? Eu acho. Nos três momentos, pensei “que maravilha!” e senti felicidade.

Sim, fiquei feliz porque, em minha opinião, a coragem de mulheres, a investigação cuidadosa, o julgamento de acusados e a justa condenação - quando for o caso - são motivos de comemoração para quem, como eu, pretende um nível suficiente de civilidade coletiva. Isso, em todas as áreas de atuação da bandidagem. Especificamente em relação a denúncias, julgamentos e punições de crimes sexuais cometidos contra mulheres e crianças, tenho vontade de dar festas com centenas de convidados. Porque veja, esses crimes acontecem todos os dias e esse é o fato que me choca e entristece. Também me perturba a realidade de que, na maioria das vezes, ninguém fica sabendo. Se, agora, tanta coisa vem a público é boa notícia. Resultado prático da progressiva retirada dos tapumes sociais que mantém esses crimes impunes com criminosos protegidos dentro de famílias, círculos de amigos e ambientes de trabalho. É uma duríssima "queda de braço", mas já temos vitórias a celebrar.

Uso a palavra “tapumes” como metáfora de muita coisa que você conhece. Por exemplo, a vergonha que vítimas sentem quando o crime é sexual, o sentimento de culpa mesmo quando racionalmente sabemos que não somos culpadas, o medo de termos nossos relatos ridicularizados, o “respeito” quando o criminoso é um parente próximo ou profissional destacado, a preocupação com a possibilidade concreta de ter a carreira prejudicada, os “conselhos” de quem nos pede pra “deixar pra lá”, as histórias de outras mulheres que denunciaram e se deram mal e, principalmente, o fato de acusados serem imediatamente acolhidos por boa parte da sociedade.

Esses “tapumes” não são frutos da criatividade feminina. Cada um deles – e muitos outros – foi posicionado pela nossa estrutura social e é reforçado por cada força-tarefa masculina que se forma, imediatamente, para defender com fervor homens acusados especificamente de crimes sexuais. Na maioria das vezes, de maneira explícita, mas também sob o disfarce da “neutralidade”, quando dizem “não vou me meter nisso” ou  “faltam provas”. Também quando sugerem interesses escusos que as denunciantes “talvez” tenham, tipo “acabar com a vida” do acusado. Lembra do caso Silvio Almeida? Pois é. Por ele ser negro, o pelotão de defesa do ex-ministro chegou a alegar racismo, ainda que denúncia tenha partido de uma mulher também negra, a ministra Anielle Franco. "Mas é porque eles querem justiça, não concordam com julgamentos precipitados", você pode estar pensando e, com isso, traz um ponto importante a ser observado.

Olha que interessante: não vejo a mesma movimentação se um desconhecido é preso por tráfico de drogas, por dar golpes no mercado financeiro ou por dirigir embriagado e matar alguém. O recorte de gênero não aparece na reação à publicação desses casos. É intrigante que os mesmos homens que "não concordam com julgamentos precipitados" não se unam em torno da defesa de acusados de assaltos, invasões de bancos e outros crimes comuns. Nesses casos, homens e mulheres se manifestam de acordo com outros marcadores sociais e questões individuais. O “apito de cachorro” é a denúncia feminina, especialmente de crimes sexuais. Essas denúncias trazem uma linguagem em código que tem um significado específico para o grupo “homens” e o (imenso) subgrupo que escolhe defender acusados talvez vá muito além do mero exercício da “brodagem”, que miramos quando pensamos nesse tema. Ao observar algumas reações, sempre fico pensando que a gente costuma defender quem faz algo que já fizemos ou que somos capazes de fazer. Aí, julgo internamente, não vou mentir.

Faz sentido julgar, eu acho. Siga aqui comigo e conclua que, a cada vez que uma mulher denuncia, outras se sentem encorajadas a denunciar. Efeito mais prático ainda é que toda vez em que uma de nós expõe um tio que cometeu um crime, por exemplo, outros tios criminosos passam a ser “denunciáveis”. O mesmo acontece com chefes, primos, irmãos, padrastos, padrinhos, vizinhos e a tal “respeitabilidade” de posições familiares e hierárquicas é só um dos “tapumes” que caem. Se a “vergonha” de uma mulher passa, a de outras também vai passar. Se uma toma coragem, inspira outras a também tomar. Isso, claro, faz com que, para muitos homens, o fato de um estranho ser denunciado ou punido por um crime sexual, passe a ser uma perturbadora questão pessoal. Não é elementar?

Desenhando com mais detalhes: neste momento, aquela atriz que foi obrigada a ficar nua em um teste de elenco, a paciente que sentiu o pênis do médico roçar na perna durante uma transvaginal, a amiga que foi estuprada no fim da farra, a aluna que foi beijada à força durante uma carona pra casa, a secretária que foi assediada durante anos pelo chefe, a menina que era abusada pelo amigo da família e tantas outras personagens esquecidas podem estar pensando em voltar para escrever - e protagonizar - imprevistos últimos capítulos. Sim, essa é uma possibilidade cada vez mais concreta e eles sabem disso. Então, todas as vítimas que estavam esquecidas atrás dos “tapumes”, voltaram a ser lembradas por criminosos, passando a povoar um pesadelo masculino chamado “mulheres que sabem o que fiz em verões passados”. Portanto, entendo que eles estejam cada vez mais "cheios de dedos", para não dizer desesperados, que é o que a leitura das manifestações me faz pensar.

Eu não estou generalizando, não venha com essa desonestidade. Desde o início, falo de criminosos sexuais que contavam com nosso silêncio para se proteger das consequências dos próprios atos e agora não estão seguros mais. Afirmo, então, que homens muito incomodados, reativos e/ou "estupefatos" com as (cada vez mais frequentes) denúncias de mulheres, me passam a mensagem de que têm medo de terem seu segredos (ou de amigos) revelados. Também afirmo que, em minha percepção, a gente encontra esse comportamento, ainda, na maior parte dos caras. O resumo é esse. Não sou burra (nem amarga, nem tenho raiva de todos), portanto sei que existem (e convivo com) exceções. Há muitos homens inocentes de qualquer crime e que são nossos aliados.

Principalmente, existem aqueles que entendem o machismo que nos estrutura e assumem erros, precisamente para consertar. Muitos vêm modificando a forma de lidar com denúncias, já que é esse o assunto em pauta. Por exemplo, fiquei muito feliz quando li meu amigo Tiago dizendo "eu acredito na vítima", num dos primeiros comentários da matéria sobre a denúncia da mulher na rádio. Sim, ela poderia estar mentindo, mas, estatisticamente, isso não é o mais provável e há muitos homens que já entendem essa realidade.  Porém, o cinismo, a “neutralidade” e a abrangência do ataque coletivo a mulheres que denunciam – e apoiam denúncias - é um fato facilmente comprovável de muitas maneiras, inclusive nas caixas de comentários de textos sobre qualquer caso de violência sexual.

Provavelmente, o fenômeno se repetirá neste texto, conforme esperado. Nenhuma novidade. Pois a dica da tia é: leia tudo atentamente, observe os discursos, ligue os pontinhos e aproveite para, a partir disso, identificar que é inimigo e quem é aliado. Aliados também discordam, claro. Isso é saudável. Mas, certamente, não vão expor ideias de supremacia masculina, nem desqualificar mulheres em geral. Homens que são nossos aliados reconhecem a violência sexual masculina contra mulheres e crianças como um problema social causado pelo gênero do qual fazem parte e estão atuando, entre outros homens, para mudar mentalidades. Eles não repetem os mantras e comportamentos da baixa masculinidade. Por isso, observar como os caras agem diante das discussões que envolvem gênero é uma boa peneira porque - seja você homem ou mulher - é importante saber com quem rir, dançar, namorar e, principalmente, em quem confiar. Com eles à vontade nas redes sociais, tá a cada dia mais fácil fazer "diagnósticos" e - em nosso caso -  diminuir os riscos de viver algo que, no futuro, precise ser denunciado. Como perguntaria Senhorzinho Malta, "tô certa ou tô errada?". O que posso afirmar é que comigo tem funcionado. Meu círculo social é cada vez mais seguro e saudável. Por hoje é só, amizade.