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Flavia Azevedo
Publicado em 16 de setembro de 2023 às 08:00
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Não precisa ter doutorado, pós-doc nem mesmo mestrado para escutar áudios que circulam pelo Whatsapp. Muito menos para - depois de escutar o áudio de mais de uma hora – entender o que aconteceu na aula da professora Jan Alyne, na FACOM (Faculdade de Comunicação da UFBA), nesta semana. Eu escutei duas vezes e tenho a minha opinião. No entanto, aqui, comerei pelas beiradas. Justamente por haver uma fila de especialistas – muito mais embasados do que eu - aptos a destrinchar o fato. Então, que eles (elas e/ou elos) se ocupem do ocorrido no ambiente que dominam. Apenas observo e me inspiro pra falar, assim, de forma geral. >
Quem tem criança em casa sabe que depois de extrema excitação – ainda que muito feliz - acontece uma briga. “É melhor parar e respirar, pra não dar confusão”, “sentem aqui pra beber água”, “para um pouquinho, gente” e frases de sentido parecido foram escutadas, por mim, durante toda a minha infância. Repeti essas frases durante a infância do meu filho. Internalizei e digo as mesmas frases, pra mim mesma, até hoje, já bem avançada na idade adulta. Funciona bem.>
Foi parando para respirar e beber água que, na minha escalada pessoal feminista, parei antes de odiar todos os homens e achar que toda mulher é bacana. Foi por pouco, mas consegui direcionar meu ódio (não tenho outra palavra) a estruturas e comportamentos machistas (individuais ou coletivos), mas não a todo e qualquer indivíduo do gênero masculino. Também a ser aliada do coletivo feminino e não de qualquer indivíduo do gênero feminino, em qualquer situação. Também erramos. Por exemplo. >
Felizmente, não me excitei a ponto de me sentir deusa e soberana, sagrada e dona de toda a razão. Parei antes de me achar superior a qualquer homem, apenas por ser mulher. Não ergui um altar para o meu útero nem derramei minha menstruação pelos assentos dos transportes públicos, justamente porque parei para respirar. Não convivo apenas com mulheres e não educo meu filho dizendo que ser homem cis branco é uma condenação à mediocridade. Porque não é, nunca foi nem será. Formação baseada em equidade salva e há muitas experiências no mundo que podem provar. >
Estou comparando os movimentos sociais de “minorias” ao comportamento infantil da excitação desmedida que, no fim, dá em merda? Não estou e não me interprete mal. Mas se quiser, pode. Não me importo e informo que isso reafirmaria, exatamente, o meu argumento. Com honestidade, você vai perceber que o quero dizer é que no bojo dos nossos levantes, há convites para excessos e deturpações de toda ordem. O ponto é esse e está muito depois das legítimas motivações originais. >
Também acho que fragilidades (emocionais e de caráter, principalmente) individuais encontram, na luta coletiva, uma infinidade de possibilidades de encaixes, nem sempre saudáveis. Às vezes, o coletivo não “cura” o indivíduo e o indivíduo ainda “adoece” pelo menos um pedacinho do coletivo. A manipulação da “luta” para adequação ao mote pessoal é bem comum. Nem sempre o vivente consegue separar uma coisa da outra. Às vezes, nem quer. Eu que o diga. Não é raro que, antes de respirar, eu não saiba, não queira saber e tenha raiva de quem sabe.>
Isso, fora a desonestidade explícita que nos faz um convite a cada esquina. Declinar também é um desafio. Outro dia mesmo eu estava pensando sobre certo tipo de “denúncia”. Veja: se eu não sabia que acordar já no meio de uma “transa” era abusivo, será que quem cometeu isso, que agora percebo como abuso, sabia? Hoje, eu sei que está errado, que é – e sempre foi - violência. Mas, se eu mesma percebia como parte “aceitável” da relação, por que aquele outro indivíduo deveria perceber diferente, antecipando, em décadas, uma construção atual? O conceito de estupro foi – felizmente – se aperfeiçoando ao longo do tempo. Excelente. Mas não, eu não vou tratar como estupradores meus namorados dos anos 90. >
(Evidente que, hoje, nenhum homem venha sequer tentar porque vai dar ruim. Pra ele, claro.)>
Meu filho ter preguiça de trabalhos domésticos é uma expressão do machismo estrutural ou apenas a adolescência chegando? Eu também tinha preguiça, lembro. Lavava só as minhas calcinhas e sob muito protesto. Todas as reações negativas masculinas aos meus textos estão motivadas por machismo ou preciso separar violência de gênero do saudável contraditório? Fico com a segunda alternativa. Tenho o direito de falar mais e mais alto numa mesa de homens, por ser mulher - e isso é uma “reparação histórica” - ou devo esperar a minha vez em mesas de homens ou de mulheres? Não se trata, apenas, da mais básica educação doméstica? Enfim, são apenas exemplos. >
Tudo meio polêmico, né? Também acho. Que espinhoso é pensar. Mas gosto e continuo. No plano individual, o fato de ser uma mulher cis me transforma, imediatamente, em vítima, em qualquer situação em que, do outro lado, esteja um homem cis? Não importa o que eu faça? O fato de ter a pele “clara” me faz agressora em qualquer eventual conflito com alguém de pele mais escura do que a minha? Fenótipo, orientação sexual e identidade de gênero são argumentos definitivos em todas as circunstâncias? Perigoso, hein?>
Se chegamos a esse ponto, precisa “debrear” porque a mediocridade venceu outra vez. É o que eu acho. Necessário, mesmo, parar para respirar, diante da desmedida excitação. Ou, então, considerar que está tudo bem e, com isso, assumir a derrota profetizada por Paulo Freire em sua frase mais famosa e repetida ad nauseam. Se ainda há alguém que não conhece, tá aqui: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”. Bom notar que não estão a salvo da relação “causa/consequência” nem as mais relevantes instituições de ensino superior.>
Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo>