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Por que tão tristes? Mulheres liberais são menos felizes e mais solitárias

Leia o texto de Jorge Cajazeira

  • J
  • Jorge Cajazeira

Publicado em 5 de abril de 2025 às 06:00

Índices de suicídio estão alarmantes
Índices de suicídio estão alarmantes Crédito: Shutterstock

Meu filho Gabriel é um exímio analista de dados estatísticos – provavelmente herdou esse talento da mãe, professora de Estatística no Instituto de Matemática da UFBA. Ele se diverte desafiando suas irmãs com artigos que contrariam completamente o consenso familiar.

Recentemente, me deparei com um dado alarmante: os índices de suicídio entre mulheres no Brasil têm apresentado um aumento preocupante nos últimos anos. De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2010 e 2019, a taxa de mortalidade por suicídio no sexo feminino cresceu 29%, passando de 2,21 para 2,85 por 100 mil mulheres. Além disso, as tentativas de suicídio são significativamente mais frequentes entre as mulheres. Entre 2010 e 2018, cerca de 68% das 338.569 notificações de tentativas de suicídio no país foram do sexo feminino.

Estudos apontam diversos fatores que contribuem para esse cenário, incluindo violência de gênero, desigualdades sociais e transtornos mentais, como depressão. Pesquisas indicam, por exemplo, que mulheres vítimas de violência doméstica apresentam um risco significativamente maior de cometer suicídio.

Foi então que Gabriel me mostrou uma publicação que me deixou absolutamente atônito – um estudo que sugere uma conexão intrigante entre a inclinação política e o comportamento feminino.

A American Family Surveyi é um estudo anual de abrangência nacional, conduzido com 3 mil americanos pelo Deseret News e pelo Center for the Study of Elections and Democracy da Brigham Young University. Realizada pela primeira vez em 2015, a pesquisa busca entender as experiências dos americanos em seus relacionamentos, casamentos e famílias, além de analisar como esses aspectos se relacionam com eventos atuais e questões de políticas públicas.

A pesquisa de 2024 aponta uma tendência intrigante: mulheres jovens de perfil liberal apresentam índices significativamente mais baixos de satisfação com a vida em comparação com as conservadoras. Os dados indicam que apenas 12% das liberais, com idades entre 18 e 40 anos, se consideram “completamente satisfeitas” com suas vidas, enquanto esse percentual sobe para 28% entre as moderadas e atinge 37% entre as conservadoras. Além disso, as mulheres liberais são quase três vezes mais propensas a relatar episódios frequentes de solidão ao longo da semana – 29% contra 11%.

Especialistas acreditam que um dos fatores que contribui para essa disparidade seja o pensamento catastrofista, que leva indivíduos a interpretar eventos ambíguos de maneira negativa. Essa tendência, notadamente mais acentuada em mulheres de esquerda, amplificada pelo uso excessivo das redes sociais, reforça uma visão de mundo mais desoladora e um sentimento de impotência. Psicólogos apontam que essa forma de processar mentalmente as adversidades se assemelha ao que caracteriza quadros depressivos.

Os impactos desse fenômeno já haviam sido identificados em 2020, quando um estudo da Pew Research revelou que mulheres jovens de perfil progressista relatavam níveis mais altos de sofrimento mental. Em 2022, pesquisas adicionais indicaram um aumento expressivo da depressão entre meninas liberais no ensino médio, um fenômeno muito mais acentuado nesse grupo do que entre estudantes conservadoras.

Inspirados nas teorias do sociólogo francês Émile Durkheim, pesquisadores analisaram como diferentes níveis de integração social podem influenciar a felicidade das mulheres de diferentes espectros ideológicos. Elementos como casamento, participação em instituições religiosas e níveis de solidão foram avaliados como possíveis explicações para essa diferença de satisfação com a vida.

De acordo com o American Family Survey, mulheres conservadoras entre 18 e 40 anos se casam com uma taxa 20 pontos percentuais maior do que as liberais da mesma faixa etária. Além disso, mais da metade das conservadoras frequentam a igreja semanalmente, enquanto entre as liberais esse número cai para apenas 12%. Esses dois fatores – casamento e religiosidade – explicam aproximadamente metade da diferença ideológica na satisfação com a vida, mesmo quando se controlam variáveis como raça, nível educacional e renda.

A pesquisa também identificou um aumento generalizado da solidão na sociedade americana, mas apontou que as mulheres liberais são desproporcionalmente mais afetadas. Quase um terço delas (29%) afirmou sentir-se solitária várias vezes por semana, em comparação com apenas 11% das conservadoras. Como esperado, a solidão tem forte correlação com a satisfação com a vida, e sua inclusão nos modelos estatísticos reduziu parcialmente o impacto do casamento e da participação religiosa na análise. No entanto, o matrimônio continuou sendo um dos principais preditores de bem-estar.

Diante dos resultados, os pesquisadores chegaram a três conclusões principais:

1. A disparidade ideológica no bem-estar emocional das jovens mulheres persiste.

2. Essa diferença não está associada apenas a um viés cognitivo pessimista, mas também à menor integração das mulheres liberais em instituições sociais estruturantes, como o casamento e a religião.

3. O menor envolvimento com essas instituições pode ser um fator determinante para os altos índices de solidão e, consequentemente, a menor satisfação com a vida entre mulheres liberais.

O estresse faz parte da vida. Quando algo estressante acontece, nosso corpo reage automaticamente: a frequência cardíaca dispara, a pressão arterial sobe – a clássica “reação de luta ou fuga”. O esperado é que, passada a tensão, tudo volte ao normal. Mas e quando o estresse persiste?

A solidão e o isolamento, por exemplo, também são gatilhos de estresse. Em momentos difíceis, conversar com alguém próximo pode aliviar a tensão. Um amigo atencioso ou um bate-papo com a esposa ajudam a trazer a calma de volta. Mas sem essa válvula de escape, o corpo pode permanecer em estado contínuo de alerta, como um alarme que nunca desliga.

E, ao que parece, não são apenas os humanos que sofrem com isso. Até as galinhas estão estressadas – e os consumidores sentem o impacto direto no bolso. O preço dos ovos já subiu 17% no atacado este ano, e uma das explicações apontadas por especialistas tem nome e sobrenome: aquecimento global.

Pasmem! Os histéricos ambientais sempre arrumam um jeito de culpar o tal do aquecimento global.

Segundo Felipe Queiroz, economista-chefe da Associação Paulista de Supermercados (Apas), o aumento das temperaturas afeta a produção de ovos. Acima dos 28ºC, as galinhas começam a sofrer e reduzem a produção. Como as principais granjas do país estão no interior de São Paulo, onde os termômetros superaram os 30ºC, o impacto foi inevitável. É mole?

Agora, se o calor excessivo afeta as galinhas, será que também influencia o bem-estar emocional das pessoas? Como visto, o estudo da American Survey sugere que jovens mulheres de esquerda apresentam níveis mais altos de estresse e ansiedade do que suas contrapartes conservadoras. Entretanto, a pesquisa indica que essa diferença poderia ser amenizada por uma maior conexão com instituições que proporcionam propósito, pertencimento e estabilidade.

Ou seja, enquanto o calor continua castigando tanto as granjas quanto os debates políticos, pelo menos uma coisa é certa: melhor deixar a alta temperatura para os ovos.

Jorge Cajazeira é Ph.D. em Administração pela FGV/EAESP e professor da UEFS