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Publicado em 16 de agosto de 2024 às 22:28
Uma quadrilha montou uma central telefônica clandestina, em Campinas, no interior de São Paulo, que usava até robôs digitais para aplicar golpes contra médicos e dentistas em escala nacional. Com informações privilegiadas, os criminosos abordavam profissionais de saúde e os compeliam a quitar dívidas inexistentes. >
Já foram identificadas 475 vítimas em sete Estados, mas o número pode dobrar. Sete pessoas - quatro mulheres e três homens - foram presas em flagrante.>
Nenhum dos suspeitos presos teve a identidade revelada. A reportagem não conseguiu localizar as defesas.>
Segundo a investigação, o bando é suspeito de aplicar golpes em Estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pernambuco e Bahia. "Eles tiveram acesso ao banco de dados de pelo menos uma grande cooperativa de serviços de saúde e, com essas informações, ligavam para as vítimas para informar e cobrar falsos débitos. Os suspeitos ora se apresentavam como funcionários do setor de cobrança da cooperativa, ora como servidores de cartórios, oferecendo a quitação supostamente vantajosa das dívidas inexistentes. Eles ameaçavam protestar a pessoa física das vítimas ou excluí-las da cooperativa", disse o delegado Sandro Jonasson, do 11º Distrito Policial de Campinas, responsável pela investigação.>
Para convencer as pessoas enganadas, eram utilizados aplicativos falsos com mensagens via celular. As ligações fraudulentas eram feitas também por robôs que replicavam os recados automaticamente.>
"Eles montaram uma estrutura empresarial, com computadores, robôs digitais, um grande número de celulares e chips. Ainda não temos o valor dos prejuízos, mas é um golpe de grande magnitude. São milhares de anotações, com nomes, telefones e valores. Alguns débitos eram reais, mas a cobrança era indevida. Em outros, eles simplesmente inventavam um valor e ameaçavam desligar o profissional da cooperativa se não pagasse em tantas horas", detalhou.>
Para dar uma ideia do montante do golpe, o delegado citou que um médico da Bahia aceitou pagar aos criminosos uma suposta dívida de R$ 36 mil em 12 prestações de R$ 3 mil cada. Uma médica de Mato Grosso do Sul fez um Pix de R$ 8 mil para a quadrilha para quitar uma dívida falsa de R$ 80 mil.>
"Foi a partir dessa transação que conseguimos identificar o primeiro suspeito e depois chegar à quadrilha. Quando falamos com a médica, ela insistiu que o pagamento era regular e custou a acreditar que tinha caído em um golpe", contou o delegado.>
As investigações começaram há cerca de um ano e, com a identificação de um dos estelionatários, foi possível chegar ao endereço da central de golpes, em pleno centro de Campinas. Após monitorar o local, a equipe flagrou o suspeito entrando no imóvel.>
Segundo Jonasson, as investigações apontam para a ação de uma facção criminosa. "Quando a equipe entrou, às 8h40 da manhã, eles estavam trabalhando a todo vapor e vimos que a central operava 24 horas por dia, sete dias por semana. Uma estrutura profissional assim, operando há quase um ano, não estaria em pé sem o aval de uma facção", disse.>
Foram apreendidos 30 celulares, mais de 100 chips, seis computadores com unidades processadoras, telefones fixos e calhamaços com anotações e registros dos crimes. A central funcionava em uma casa alugada. "Era um escritório do crime com estrutura de empresa, balancetes diários e compliance, pois uma das pessoas confessou que eles operavam com cumprimento de metas", acrescentou.>
Conforme o delegado, duas das mulheres envolvidas alegaram que não sabiam tratar-se de atividade criminosa. A alegação não foi aceita pela Justiça. "Como todos, elas receberam treinamento e sabiam bem o que estavam fazendo", afirmou.>
Os sete suspeitos passaram por audiência de custódia nesta sexta-feira, 16, e o juiz decretou a prisão preventiva de todos por crimes como extorsão, estelionato e organização criminosa. Eles foram encaminhados para unidades prisionais.>
Ainda segundo o delegado, como a investigação prossegue para apurar outros possíveis envolvidos, os nomes dos suspeitos não serão divulgados. "A partir da quebra dos sigilos bancário e telemático dos suspeitos, esperamos encontrar outras conexões desse escritório. Tudo indica que há outras centrais operando na Região Metropolitana de Campinas", disse.>