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Flavia Azevedo
Publicado em 16 de maio de 2026 às 13:00
Nesta semana, fomos brindados com a indignação performática de um certo “influenciador” que, seguido por uma pequena multidão de “comentaristas” de internet, decidiu eleger o Cine Glauber Rocha como o novo inimigo público de Salvador. O “crime” da administração foi restringir o acesso ao terraço após sucessivos episódios de furtos e depredação. Bastou isso para surgir a avalanche de acusações sobre elitismo, gentrificação e apropriação do espaço público. O episódio, óbvio, é só mais um sintoma da falta de noção que domina a militância digital. Porém, é sobre o Glauber. Então, merece textão, claro. >
Talvez essa turma não saiba que o Cine Glauber Rocha é um sobrevivente. Um espaço que resistiu ao abandono do Centro Histórico, à decadência dos cinemas de rua e às inúmeras previsões de fracasso. Inaugurado em 1919 como Cine Kursaal Baiano, o equipamento passou por diferentes fases até ser reaberto em 2008, devolvendo à Praça Castro Alves parte da sua vida cultural. O projeto foi conduzido por Cláudio Marques, que há décadas insiste na ideia de manter um cinema de rua vivo em Salvador, cidade que trocou boa parte dessa experiência coletiva pelos corredores dos shoppings.>
Imagens divulgadas pelo Cine Glauber Rocha
Hoje, o Cine Glauber funciona por meio de concessão pública com operação privada. O espaço não é mantido pelo Estado, como os “alecrins” resolveram gritar. Existe ali uma obrigação contratual de preservação patrimonial, manutenção do equipamento e viabilidade financeira. A concessão é mantida pelo governo da Bahia não como “favor”, mas pelo reconhecimento da relevância cultural do projeto e da dificuldade de manter um cinema de rua funcionando no Brasil de hoje. Isso significa pagar funcionários, distribuidoras, manutenção técnica, segurança, energia, limpeza e conservação de um prédio histórico centenário.>
Nesse cenário, talvez o absurdo da “indignação” fosse menor se a Bahia não estivesse cheia de equipamentos culturais abandonados. O Cine-Teatro Jandaia, na Baixa dos Sapateiros, por exemplo, está fechado há décadas, em ruínas e sob risco de desabamento, mesmo depois de tombado pelo IPAC. O espaço, que já foi um dos cinemas mais importantes do país e recebeu nomes como Carmen Miranda, é um símbolo do descaso no centro da cidade. A diferença entre o Jandaia e o Glauber é que um resiste porque existe comando, gestão, investimento privado e interesse em manter o espaço vivo, enquanto o outro está aí esperando pelo Estado que não chega.>
Na prática, além de exibir filmes (inclusive muitos que nunca chegam aos grandes circuitos comerciais), o Glauber mantém uma política de preços populares e projetos de democratização de acesso. Há anos o cinema realiza sessões a preços reduzidos e, desde 2022, mantém o projeto Escola no Cinema, em parceria com o governo estadual, levando mensalmente dois mil estudantes da rede pública para sessões gratuitas. No acordo, o cinema entra com estrutura, operação e programação e o Estado organiza a logística de transporte das crianças e adolescentes. Ou seja, enquanto a internet grita porque não poderá mais usar o terraço pra fazer selfies, existe uma política cultural concreta acontecendo diariamente ali.>
O acesso ao terraço foi limitado porque o espaço vinha sofrendo vandalização há algum tempo. A administração divulgou imagens de pias quebradas, pichações e danos recorrentes à estrutura. De acordo com a administração, as tentativas anteriores de controlar a situação sem restringir o acesso fracassaram. A exigência do ingresso foi a alternativa encontrada para impedir que o local se transformasse definitivamente em terra de ninguém. E, segundo a própria direção do cinema, os episódios de depredação acabaram.>
Os “alecrins dourados” não conseguem alcançar que nenhum equipamento cultural sobrevive sem algum nível de controle, organização e preservação. Museus, centros culturais, parques históricos e bibliotecas públicas têm normas de acesso, vigilância e punições para danos ao patrimônio. Isso não os transforma automaticamente em espaços elitistas. Transformar qualquer limite em opressão é uma das maiores infantilizações da atualidade.>
Também vem desse público o uso do conceito de gentrificação como palavra mágica para qualquer situação que envolva regulação de espaço urbano. Gentrificação não é simplesmente impedir vandalismo. O conceito envolve transformações econômicas profundas, expulsão social e reorganização excludente dos territórios. Aplicá-lo ao Cine Glauber Rocha é mais uma prova da banalização do discurso político. O Glauber, na prática, faz exatamente o contrário do esvaziamento cultural, quando ajuda a devolver circulação, cinema, debate e atividade artística a uma região que já esteve abandonada.>
Elitista é abandonar equipamentos históricos até que desapareçam completamente. Ricos não precisam de cinemas de rua nem sessões a dez reais. O Cine Glauber Rocha continua ali, vivo, exibindo cinema brasileiro, formando público, recebendo estudantes e resistindo à lógica dos multiplex de shopping. Sugiro que os “revoltados” comprem ingressos, sentem nas poltronas e lembrem que um dos aspectos mais violentos da exclusão é quando se permite a morte de espaços de cultura acessíveis para todos. Ou, então, vão lá e subam no terraço do Jandaia. Que é de graça e todo mundo pode fazer qualquer coisa.>
Por @flaviaazevedoalmeida>