Acesse sua conta
Ainda não é assinante?
Ao continuar, você concorda com a nossa Política de Privacidade
ou
Entre com o Google
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Recuperar senha
Preencha o campo abaixo com seu email.

Já tem uma conta? Entre
Alterar senha
Preencha os campos abaixo, e clique em "Confirma alteração" para confirmar a mudança.
Dados não encontrados!
Você ainda não é nosso assinante!
Mas é facil resolver isso, clique abaixo e veja como fazer parte da comunidade Correio *
ASSINE

A farsa da 'esposa troféu': o que o caso de influencer ensina sobre independência financeira

Influenciadoras 'trophy wives' viralizam em plataformas como TikTok e Instagram, mas especialistas ponderam sobre as armadilhas do estilo de vida

  • Foto do(a) author(a) Thais Borges
  • Thais Borges

Publicado em 5 de abril de 2025 às 11:00

Esposas troféu crescem em plataformas como o TikTok
Esposas troféu crescem em plataformas como o TikTok Crédito: Thainá Dayube/CORREIO

Na teoria, parece ser uma vida de sonhos. Ter tempo para viajar, ir à academia, comprar tudo que quiser e passar horas no salão ou fazendo qualquer outra coisa - menos trabalhando. Tudo isso enquanto alguém cuida das despesas. Esse estilo de vida é para poucos - e, nos últimos anos, se tornou popular nas redes sociais (em especial, no TikTok), especialmente graças a um grupo de influenciadoras que se apresenta como ‘esposas troféu’ (trophy wives, no inglês).

Por definição, a esposa troféu precisa ser... um troféu. Ou seja, um símbolo de status para o marido, já que, em geral, é um acerto mais conhecido nas relações heterossexuais. É uma figura vista como atraente e mais jovem que o esposo - esse, por sua vez, é obrigatoriamente mais rico e responsável por garantir um padrão elevado de vida. O problema é que essa dinâmica costuma esconder uma relação discrepante de poder, além de uma grande armadilha.

No mês passado, o caso da influencer Gabriella Jacinto reacendeu a polêmica e trouxe a independência financeira de mulheres para o centro de uma polêmica. Com mais de 2,1 milhões de seguidores no Instagram e 615 mil no TikTok, Gabriella se tornou conhecida justamente por se dizer esposa troféu e mostrar sua rotina. No entanto, ela publicou um relato em que conta que, após ter engravidado, o marido pediu que eles assinassem uma união estável com separação total de bens.

"Mesmo quando eu fazia aqueles vídeos de esposa troféu, vídeos é um trabalho (sic). Vocês sabiam disso? Ser influencer é um trabalho. Por que eu estou falando isso para vocês? Porque eu influenciei muitas pessoas a serem esposa troféu. Só que assim: corre atrás do seu. Não fica dependendo 100%, porque não vale a pena. Se acontecer alguma coisa, está tudo bem". Alguns dias depois do assunto ter se tornado uma polêmica nas plataformas, Gabriella gravou um novo vídeo em que conta que, na verdade, a medida foi acordada para protegê-la, já que o trabalho de seu marido é muito instável.

No entanto, a movimentação foi suficiente para gerar um alerta para outras mulheres. Na avaliação da advogada Mariana Régis, especialista em Direito das Famílias com perspectiva feminista, a ideia da ‘esposa troféu’ é uma armadilha de consumo para um público alvo de mulheres. "Mas é o consumo de algo que não existe, que é uma vida sem trabalho para mulheres, dentro de uma configuração familiar heteroafetiva", explica.

Independência

Após a repercussão do caso de Gabriella, uma das mulheres que contou sua experiência publicamente foi a médica ginecologista e influenciadora Marcela McGowan, que publicou um vídeo intitulado: ‘Eu já fui esposa troféu?’. Na publicação, Marcela reforça que ‘ser uma esposa troféu pode custar muito caro’. Em entrevista ao CORREIO, ela contou que ficou chocada e decepcionada ao ver que esse estilo de vida estava sendo glamourizado nas redes sociais.

"Parece que a gente está há tanto tempo lutando para mudar a realidade, mas vê esses nichos de discursos mais conservadores ganhando uma força muito grande. E achei perigoso, porque elas vendem uma realidade que não é o desfecho que a maioria desses relacionamentos têm", pondera.

No passado, antes de entrar no Big Brother Brasil 20, quando ficou nacionalmente conhecida, Marcela viveu um relacionamento de 12 anos - incluindo um casamento - que poderia ser enquadrado dessa forma. No entanto, o aprendizado que veio da mãe fez com que ela não abrisse mão dos estudos e da carreira.

"Minha mãe foi uma mulher que não teve muita oportunidade de fazer diferente, porque engravidou aos 18 anos, casou grávida e ficou num relacionamento muito complicado até ser traída. Ela insistiu até ter independência financeira e sempre bateu nessa tecla comigo. Você precisa estar num relacionamento porque te faz bem, não porque você depende dessa pessoa".

Quando o casamento chegou ao fim, a médica diz que o término foi tranquilo. Doloroso, como qualquer divórcio, mas sem problemas maiores do que o aspecto emocional. Ela podia, explica, escolher não estar em um relacionamento - e não é isso que acontece com muitas das mulheres que não têm independência financeira. "A grande falácia, o grande problema é que o desfecho da esposa troféu nunca é algo positivo. É vendido como fácil, mas muitas mulheres acabam pagando um preço alto por terem cedido sua liberdade".

A médica conta que, como em muitos casamentos do tipo, tinha um acordo pré-nupcial de separação total de bens. "Não acho que seja necessariamente errado, mas é preciso ter conversas importantes. Muitas vezes, mulheres que estão em casa não percebem que esse trabalho de casa não é remunerado, mas tem importância financeira. Se você está cuidando da casa, isso merece ser levado em conta. No meu caso, a liberdade significou tudo. Eu pude escolher o que fazer com meu futuro", pontua.

Trabalho

O caso da influencer ainda é questionável porque, como a própria Gabriella pontuou, ela trabalha com redes sociais - e esse é um negócio lucrativo. Além disso, em muitos contextos, essas mulheres se dedicam ao trabalho doméstico e de cuidado da família, como lembra a advogada Mariana Régis. "Esse trabalho é dotado de valor econômico, ainda que não seja remunerado diretamente pelos parceiros, nem reconhecido socialmente. Essas mulheres contribuem para o acúmulo patrimonial dos parceiros, entregando sua mão de obra", diz ela. Mesmo quando há suporte de funcionários, há uma carga mental relacionada à gestão da casa.

"O trabalho reprodutivo é trabalho. Logo, em qualquer contexto, elas trabalham", enfatiza a advogada. "Por esses e outros motivos, me parece uma fraude esse tipo de conteúdo produzido. Visa seduzir mulheres cansadas de serem exploradas pelo mercado de trabalho e por seus parceiros, vivendo a falsa ideia de que é possível acessar bens e serviços sem exercer qualquer trabalho. Não é verdadeiro", acrescenta Mariana, que cita como a estrutura machista encontra sustentação histórica na chamada divisão sexual do trabalho ou divisão dos papéis sociais na família.

Outro lado perverso da vida das esposas troféus, de acordo com a advogada, é a criação de um contexto propício às violências patrimonial, psicológica e de outras naturezas. "Pesquisas apontam que a dependência econômica é um fator que contribui pela permanência das mulheres em relacionamentos abusivos. Falar sobre proteção patrimonial da mulher vai muito além de falar de dinheiro", pondera. Há, ainda, o impacto de vivências como a maternidade, que também tornam essas mulheres mais vulneráveis.

"Acho importante pontuar que toda mulher está submetida a um contexto estrutural de desproteção legal no campo das famílias, pois as leis e as decisões judiciais são fruto de um sistema que protege homens, que visa manter o poder nas mãos desse grupo social".

Ela orienta que as mulheres busquem informação jurídica antes de casar ou viver em união estável. Segundo a advogada, é possível mudar o regime de bens já adotado ou pensar em mecanismos de proteção, como definir que a mulher ficará no imóvel do ex-casal, se tiver filhos, em caso de separação e até a permanência no plano de saúde, ainda que por um tempo determinado.

Outra recomendação é evitar a contratação de um único advogado indicado pelo ex-marido, se o casal optar por um pacto antenupcional. "Não se submeta à pressão para assinar qualquer coisa rapidamente, sem o suporte de uma advogada e sem ter clareza sobre as consequências dessa escolha a longo prazo, especialmente se tem planos de se tornar mãe", completa.